[ARTIGOS]

1. Qualidade de vida no trabalho
à moda brasileira



2. O mito do super-homem:
revendo os valores da sociedade patriarcal



3. Inteligência coletiva: fator
de excelência e de longevidade empresarial



4. Planejamento Estratégico
de cidade e mobilização social



5. Consciência Universitária
e Comunidade



6. Empresa-Rede e Redes Empresariais - Estratégia
Empresarial do 3º Milênio



7. Construindo a democracia
nas organizações



8. Gerenciando o
desenvolvimento de equipe



9. Modelo do universo
organizacional



10. Os ciclos de atendimento
e suporte quebram as castas
profissionais



11. Paradigmas filosóficos e desenvolvimento humano


12. Estratégia: a construção
do futuro


13. Liderança, um fenômeno
relacional



14. Progresso econômico com
atrofia humana. Até quando?



15. Reflexões sobre a
cidadania?








 

 

ARTIGOS


ARTIGO 1 - QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO À MODA BRASILEIRA

Ruy de A. Mattos
Psicólogo Organizacional e
Consultor de Empresas


"maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os
dias da tua vida".
"do suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes
à terra." (Gênesis 3:17-19)

A tradição judaico-cristã legou-nos a culpa de Adão que cometeu o pecado original, ao comer da fruta da árvore do conhecimento. Como castigo, Deus o expulsou do Jardim do Éden e, com isso, criou a trabalho como penitência que ele, Eva e todos os seus descendentes, ficaram condenados a cumprir, para tentar, em vão, expiar a culpa.

Aliás, não é à toa que o termo "trabalho" deriva da palavra latina "tripalium", um instrumento de tortura, espécie de açoite formado por três tiras de couro com um pau em cada ponta, usado para obrigar os escravos mais resistentes a produzir.

No entanto, apesar de toda a influência européia que recebemos e que se manifesta no sentimento de culpa romano-cristão, na sizudez e frieza anglo-saxônica, no esnobismo francês, na altivez teutônica e, tardiamente, com a imigração japonesa, na disciplina coletivista, nós, brasileiros, conseguimos manter em nossas almas e em nosso inconsciente coletivo, o hedonismo natural do indígena e a alegria contagiante do negro.

Já é tempo de termos orgulho destas duas raízes culturais e de extrairmos delas a seiva que vitaliza nossa criatividade e fundamenta nosso jeito de ser e de viver.

Já é tempo de deixarmos de lado o complexo de inferioridade diante das demais nações consideradas de primeiro mundo.

Somos um povo que mantém acesa a alegria de viver, mesmo diante de tantas injustiças sociais. Somos capazes de tirar um Presidente da República de seu cargo, invadindo as ruas e praças com as caras pintadas e a irreverência juvenil, em lugar de paus, pedras e coquetéis molotov. Fazemos de tudo, até da miséria e da corrupção, motivos de chacota. Transformamos em carnaval, batucada, futebol e fantasia, nossas vitórias e nossas derrotas. (Será que foi tudo isso que deixou o velho general De Gaulle atônito, a ponto de nos considerar um país pouco sério? Hoje entendemos o significado desse elogio, quando assistimos, também atônitos, os sérios militares franceses explodirem bombas atômicas no atol de Mururoa.)

Nós, brasileiros, precisamos ter orgulho de sermos, de fato, um povo ensolarado e energizado por EROS, gozador por natureza.

Para onde vai todo esse manancial de energia quando, na 2' feira, o brasileiro entra numa fábrica ou num escritório? Parece que instala-se, magicamente, um estado de torpor no indivíduo, que o mantém emocionalmente hibernado até a chegada da 6ª feira, trazendo a promessa do final de semana, que irá libertá-lo das amarras do dever e devolvê-lo ao desfrute do prazer de viver.

Tem que ser assim? Precisamos manter esta segmentação esquizofrênica entre trabalho e lazer, continuando a fazer do primeiro, um sinônimo de obrigação, sacrifício e sofrimento e do segundo, sinônimo de prazer, liberdade e felicidade?

Claro que não. Nós podemos, e precisamos, combinar a racionalidade com a alegria, para extrair, de nossa ação produtiva, a racionalidade e o prazer de fazer algo de que tenhamos orgulho. Afinal, a qualidade de um serviço ou de um produto é diretamente proporcional à qualidade da pessoa que o faz. E longe de nós querermos nos equiparar a colméias de produção, a robôs repetitivos e previsíveis, Nós somos muito mais do que pretendem a fria racionalidade e as sutis estratégias de dominação.

O próprio Tom Peters, um dos atuais gurus da administração americana, nos revela que "o riso é um potente remédio para uma investida estratégica no aprimoramento da qualidade. O significado do riso, naturalmente, é algo bem mais profundo - alegria de se atirar a uma tarefa; de compreender as fraquezas humanas que todos compartilhamos ao tentar novas coisas e ao fazer as coisas da melhor maneira; de se comprazer com a companhia uns dos outros, na qualidade de equipe, partícipes da busca pela qualidade de classe internacional". (Revista EXAME, 18/08/93,, p. 77)

De fato, pesquisas realizadas por neurofisiologistas, descobriram que o sistema límbico, que é a região de nosso cérebro responsável pelas emoções, está equipado fisiologicamente para responder aos estímulos externos com 7 vezes mais prazer do que dor. Isto mesmo, para cada ponto de dor e sofrimento, nós possuímos sete pontos de prazer, alegria e afeto. Com isso, podemos concluir que somos fisiologicamente especializadas para o desfrute. Trazemos Éden, o paraíso perdido, dentro de nós e nem sequer o percebemos.

Por que, no dia-a-dia, as pessoas não são sete vezes mais alegres e prazerosas do que tristes, sizudas e irritadas?

Infelizmente, as condições e relações interpessoais estressantes que encontramos nas famílias, escolas e organizações desviaram essa tendência fisiológica e tornaram marginais as pessoas felizes. Este fato é confirmado por pesquisas "feitas pela clínica carioca MedRio Check-Up. especializada em tratamento de executivos, que concluiu que 10% dos pacientes chegam lá com depressão, e que, além disso, 70% dos 6 mil profissionais investigados tem alto grau de stress, provocado principalmente por um estilo de vida competitivo e obsessivo por resultados". (Revista Isto É , 9/8/95, P. 102).

Michel Foucault nos alertou para o mundo sombrio criado pela sujeição do corpo o das emoções à disciplina institucional. Nos submetemos ao regime autoritário ou perdemos a identidade. E ao nos submetermos, corremos o risco de perder a sanidade e, com ela, a alegria e o prazer de viver.

Outra pesquisa, esta realizada pela Menninger Foundation. "uma das principais clínicas americanas especializadas em stress, revela que , a continuar trabalhando sob pressão, nos próximos anos o trabalhador resistirá apenas quatro anos dentro de uma empresa. Ao final desse período, terá chegado à exaustão". Testemunhando esta hipótese, a mesma reportagem nos informa que o Banco do Brasil, contabilizou, só no ano de 1994, um número de 8.144 dias perdidos por causa do stress de seus funcionários."(Revista ISTO É, 9/8/95, p. 104).

É este o dilema existencial que está no núcleo da neurose ocupaciona1 que tem prejudicado tanto a qualidade de vida das pessoas quanto a qualidade de seus produtos e serviços.

Estamos, neste final de século e milênio, colhendo o fruto amargo, não da "árvore do conhecimento" da qual nos fala a Bíblia, mas da "árvore da ganância", que com a exploração do homem pelo homem, repete outro mito bíblico do Gênesis, o assassinato de Abel por seu irmão Caim. A inveja. a cobiça, a ganância e a usura frutificaram no fértil solo cultural de nossa sociedade de consumo, transformando o ser humano em mais um produto a ser comprado, vendido, consumido, refugado. Um mero "recurso humano", uma "mão-de-obra", um "capital humano".

Concordamos, enfaticamente, com o editorial da FOLHA DE SÃO PAULO de que "o mundo terá de passar por uma grande revolução cultural para encarar os novos tempos. De fato, desde a ascensão da burguesia e especialmente depois da Reforma, desenvolveu-se uma cultura para o trabalho. Tudo o que é trabalho é valorizado. O sucesso financeiro é a marca da aprovação daquele Deus cujo nome, vem estampado nas notas de dólares. (E é louvado nas notas dos reais brasileiros). Estar desempregado ou exercer o direito ao ócio é visto com maus olhos pelas sociedades industriais. Chegar a níveis recordes de produção de excedentes que sejam distribuídos de forma justa e tentar reverter a alienante cultura do trabalho pelo trabalho como um fim em si próprio parece ser hoje o grande desafio..." (FOLHA D£ SÃO PAULO, Editorial de 23/0 7/95.)

A própria sociedade americana, símbolo máximo da sociedade de consumo, já vem gritando e esperneando contra a deusa Economia, que continua, em seus rituais macabros, a ceifar milhares de vidas, em suas minas, indústrias, bancos e escritórios, seus templos de adoração e sacrifícios. A capa da Newsweek, de 6 de março de 1995, revela: "um quarto da população americana se queixa de estar simplesmente exausta. Pior do que o stress, a exaustão não passa com um fim de semana de descanso, nem com a leitura de um best-seller na beira da piscina. Qual a razão de tamanho cansaço? Para começar, o trabalho. O downsizing levou cada funcionário a trabalhar por 1,3 pessoas, pelo mesmo salário. O tempo de trabalho, lógico aumentou: 4,7 horas mais por semana em relação à década passada (...). A exaustão não é um nome técnico nem um diagnóstico, apenas um termo para várias doenças, entre elas a depressão. Quem se queixa, além dos sintomas do stress, ressente-se da falta de tempo para si, para a família, a igreja ou o clube. Estas pessoas consideram-se prisioneiras do trabalho e do salário e sofrem da falta de perspectiva na vida. A exaustão já é uma das cinco razões. mais freqüentes pelas quais um paciente vai ao médico nos EUA." (Revista EXAME, 15/03/95, p. 122)

É esta a "qualidade de vida", de primeiro mundo, que queremos também para o Brasil?

Já é tempo de exorcizar o mito ridículo de que "o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil". Precisamos aumentar nossa auto-estima, cultivando nossos valores culturais que nos fizeram um povo alegre, cordial, afetuoso, informal - o povo do abraço, simbolizado pelo Cristo de braços abertos.

Precisamos ter coragem e sabedoria para construir uma sociedade justa, que combine o desenvolvimento econômico e tecnológico com a solidariedade do mutirão, a alegria de nossos carnavais, o respeito multirracial, o sabor de nossas comidas, o afeto de nossas relações, o prazer das coisas simples.

Um texto zen-budista, nos ensina que: "o mestre na arte da vida , faz pouca distinção entre seu trabalho e seu lazer, sua mente e seu corpo, sua educação e sua recreação, seu amor e sua religião. Ele dificilmente sabe distinguir um do outro. Ele simplesmente, persegue sua visão de excelência em tudo o que faz, deixando aos outros a conclusão se ele está trabalhando ou se divertindo. Para ele está sempre fazendo ambos simultaneamente". Curiosamente, este é o jeito brasileiro de ser e de viver. Somos, sem saber, um povo Zen, só que temperado com muito axé, alegria e malemolência.

 

 

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