ARTIGO 1 - QUALIDADE DE VIDA
NO TRABALHO À MODA BRASILEIRA
Ruy de A. Mattos
Psicólogo Organizacional e
Consultor de Empresas
"maldita é a terra por causa de ti; com dor
comerás dela todos os
dias da tua vida".
"do suor do teu rosto comerás o teu pão,
até que te tornes
à terra." (Gênesis 3:17-19)
A tradição judaico-cristã
legou-nos a culpa de Adão que cometeu o pecado original,
ao comer da fruta da árvore do conhecimento. Como
castigo, Deus o expulsou do Jardim do Éden e, com
isso, criou a trabalho como penitência que ele, Eva
e todos os seus descendentes, ficaram condenados a cumprir,
para tentar, em vão, expiar a culpa.
Aliás, não é à
toa que o termo "trabalho" deriva da palavra latina
"tripalium", um instrumento de tortura, espécie
de açoite formado por três tiras de couro com
um pau em cada ponta, usado para obrigar os escravos mais
resistentes a produzir.
No entanto, apesar de toda a influência
européia que recebemos e que se manifesta no sentimento
de culpa romano-cristão, na sizudez e frieza anglo-saxônica,
no esnobismo francês, na altivez teutônica e,
tardiamente, com a imigração japonesa, na
disciplina coletivista, nós, brasileiros, conseguimos
manter em nossas almas e em nosso inconsciente coletivo,
o hedonismo natural do indígena e a alegria contagiante
do negro.
Já é tempo de termos orgulho
destas duas raízes culturais e de extrairmos delas
a seiva que vitaliza nossa criatividade e fundamenta nosso
jeito de ser e de viver.
Já é tempo de deixarmos de
lado o complexo de inferioridade diante das demais nações
consideradas de primeiro mundo.
Somos um povo que mantém acesa a alegria
de viver, mesmo diante de tantas injustiças sociais.
Somos capazes de tirar um Presidente da República
de seu cargo, invadindo as ruas e praças com as caras
pintadas e a irreverência juvenil, em lugar de paus,
pedras e coquetéis molotov. Fazemos de tudo, até
da miséria e da corrupção, motivos
de chacota. Transformamos em carnaval, batucada, futebol
e fantasia, nossas vitórias e nossas derrotas. (Será
que foi tudo isso que deixou o velho general De Gaulle atônito,
a ponto de nos considerar um país pouco sério?
Hoje entendemos o significado desse elogio, quando assistimos,
também atônitos, os sérios militares
franceses explodirem bombas atômicas no atol de Mururoa.)
Nós, brasileiros, precisamos ter orgulho
de sermos, de fato, um povo ensolarado e energizado por
EROS, gozador por natureza.
Para onde vai todo esse manancial de energia
quando, na 2' feira, o brasileiro entra numa fábrica
ou num escritório? Parece que instala-se, magicamente,
um estado de torpor no indivíduo, que o mantém
emocionalmente hibernado até a chegada da 6ª
feira, trazendo a promessa do final de semana, que irá
libertá-lo das amarras do dever e devolvê-lo
ao desfrute do prazer de viver.
Tem que ser assim? Precisamos manter esta
segmentação esquizofrênica entre trabalho
e lazer, continuando a fazer do primeiro, um sinônimo
de obrigação, sacrifício e sofrimento
e do segundo, sinônimo de prazer, liberdade e felicidade?
Claro que não. Nós podemos,
e precisamos, combinar a racionalidade com a alegria, para
extrair, de nossa ação produtiva, a racionalidade
e o prazer de fazer algo de que tenhamos orgulho. Afinal,
a qualidade de um serviço ou de um produto é
diretamente proporcional à qualidade da pessoa que
o faz. E longe de nós querermos nos equiparar a colméias
de produção, a robôs repetitivos e previsíveis,
Nós somos muito mais do que pretendem a fria racionalidade
e as sutis estratégias de dominação.
O próprio Tom Peters, um dos atuais
gurus da administração americana, nos revela
que "o riso é um potente remédio para
uma investida estratégica no aprimoramento da qualidade.
O significado do riso, naturalmente, é algo bem mais
profundo - alegria de se atirar a uma tarefa; de compreender
as fraquezas humanas que todos compartilhamos ao tentar
novas coisas e ao fazer as coisas da melhor maneira; de
se comprazer com a companhia uns dos outros, na qualidade
de equipe, partícipes da busca pela qualidade de
classe internacional". (Revista EXAME, 18/08/93,, p.
77)
De fato, pesquisas realizadas por neurofisiologistas,
descobriram que o sistema límbico, que é a
região de nosso cérebro responsável
pelas emoções, está equipado fisiologicamente
para responder aos estímulos externos com 7 vezes
mais prazer do que dor. Isto mesmo, para cada ponto de dor
e sofrimento, nós possuímos sete pontos de
prazer, alegria e afeto. Com isso, podemos concluir que
somos fisiologicamente especializadas para o desfrute. Trazemos
Éden, o paraíso perdido, dentro de nós
e nem sequer o percebemos.
Por que, no dia-a-dia, as pessoas não
são sete vezes mais alegres e prazerosas do que tristes,
sizudas e irritadas?
Infelizmente, as condições
e relações interpessoais estressantes que
encontramos nas famílias, escolas e organizações
desviaram essa tendência fisiológica e tornaram
marginais as pessoas felizes. Este fato é confirmado
por pesquisas "feitas pela clínica carioca MedRio
Check-Up. especializada em tratamento de executivos, que
concluiu que 10% dos pacientes chegam lá com depressão,
e que, além disso, 70% dos 6 mil profissionais investigados
tem alto grau de stress, provocado principalmente por um
estilo de vida competitivo e obsessivo por resultados".
(Revista Isto É , 9/8/95, P. 102).
Michel Foucault nos alertou para o mundo
sombrio criado pela sujeição do corpo o das
emoções à disciplina institucional.
Nos submetemos ao regime autoritário ou perdemos
a identidade. E ao nos submetermos, corremos o risco de
perder a sanidade e, com ela, a alegria e o prazer de viver.
Outra pesquisa, esta realizada pela Menninger
Foundation. "uma das principais clínicas americanas
especializadas em stress, revela que , a continuar trabalhando
sob pressão, nos próximos anos o trabalhador
resistirá apenas quatro anos dentro de uma empresa.
Ao final desse período, terá chegado à
exaustão". Testemunhando esta hipótese,
a mesma reportagem nos informa que o Banco do Brasil, contabilizou,
só no ano de 1994, um número de 8.144 dias
perdidos por causa do stress de seus funcionários."(Revista
ISTO É, 9/8/95, p. 104).
É este o dilema existencial que está
no núcleo da neurose ocupaciona1 que tem prejudicado
tanto a qualidade de vida das pessoas quanto a qualidade
de seus produtos e serviços.
Estamos, neste final de século e milênio,
colhendo o fruto amargo, não da "árvore
do conhecimento" da qual nos fala a Bíblia,
mas da "árvore da ganância", que
com a exploração do homem pelo homem, repete
outro mito bíblico do Gênesis, o assassinato
de Abel por seu irmão Caim. A inveja. a cobiça,
a ganância e a usura frutificaram no fértil
solo cultural de nossa sociedade de consumo, transformando
o ser humano em mais um produto a ser comprado, vendido,
consumido, refugado. Um mero "recurso humano",
uma "mão-de-obra", um "capital humano".
Concordamos, enfaticamente, com o editorial
da FOLHA DE SÃO PAULO de que "o mundo terá
de passar por uma grande revolução cultural
para encarar os novos tempos. De fato, desde a ascensão
da burguesia e especialmente depois da Reforma, desenvolveu-se
uma cultura para o trabalho. Tudo o que é trabalho
é valorizado. O sucesso financeiro é a marca
da aprovação daquele Deus cujo nome, vem estampado
nas notas de dólares. (E é louvado nas notas
dos reais brasileiros). Estar desempregado ou exercer o
direito ao ócio é visto com maus olhos pelas
sociedades industriais. Chegar a níveis recordes
de produção de excedentes que sejam distribuídos
de forma justa e tentar reverter a alienante cultura do
trabalho pelo trabalho como um fim em si próprio
parece ser hoje o grande desafio..." (FOLHA D£
SÃO PAULO, Editorial de 23/0 7/95.)
A própria sociedade americana, símbolo
máximo da sociedade de consumo, já vem gritando
e esperneando contra a deusa Economia, que continua, em
seus rituais macabros, a ceifar milhares de vidas, em suas
minas, indústrias, bancos e escritórios, seus
templos de adoração e sacrifícios.
A capa da Newsweek, de 6 de março de 1995, revela:
"um quarto da população americana se
queixa de estar simplesmente exausta. Pior do que o stress,
a exaustão não passa com um fim de semana
de descanso, nem com a leitura de um best-seller na beira
da piscina. Qual a razão de tamanho cansaço?
Para começar, o trabalho. O downsizing levou cada
funcionário a trabalhar por 1,3 pessoas, pelo mesmo
salário. O tempo de trabalho, lógico aumentou:
4,7 horas mais por semana em relação à
década passada (...). A exaustão não
é um nome técnico nem um diagnóstico,
apenas um termo para várias doenças, entre
elas a depressão. Quem se queixa, além dos
sintomas do stress, ressente-se da falta de tempo para si,
para a família, a igreja ou o clube. Estas pessoas
consideram-se prisioneiras do trabalho e do salário
e sofrem da falta de perspectiva na vida. A exaustão
já é uma das cinco razões. mais freqüentes
pelas quais um paciente vai ao médico nos EUA."
(Revista EXAME, 15/03/95, p. 122)
É esta a "qualidade de vida",
de primeiro mundo, que queremos também para o Brasil?
Já é tempo de exorcizar o mito
ridículo de que "o que é bom para os
Estados Unidos é bom para o Brasil". Precisamos
aumentar nossa auto-estima, cultivando nossos valores culturais
que nos fizeram um povo alegre, cordial, afetuoso, informal
- o povo do abraço, simbolizado pelo Cristo de braços
abertos.
Precisamos ter coragem e sabedoria para construir
uma sociedade justa, que combine o desenvolvimento econômico
e tecnológico com a solidariedade do mutirão,
a alegria de nossos carnavais, o respeito multirracial,
o sabor de nossas comidas, o afeto de nossas relações,
o prazer das coisas simples.
Um texto zen-budista, nos ensina que:
"o mestre na arte da vida , faz pouca distinção
entre seu trabalho e seu lazer, sua mente e seu corpo, sua
educação e sua recreação, seu
amor e sua religião. Ele dificilmente sabe distinguir
um do outro. Ele simplesmente, persegue sua visão
de excelência em tudo o que faz, deixando aos outros
a conclusão se ele está trabalhando ou se
divertindo. Para ele está sempre fazendo ambos simultaneamente".
Curiosamente, este é o jeito brasileiro de ser e
de viver. Somos, sem saber, um povo Zen, só que temperado
com muito axé, alegria e malemolência.