ARTIGO 2 - O MITO DO SUPER
HOMEM: REVENDO OS VALORES DA SOCIEDADE PATRIARCAL
Jorge Lessa Guimarães
Psicólogo Organizacional e
Consultor de Empresas
Os valores e pressupostos da sociedade
patriarcal têm dominado o processo de civilização
do Ocidente, ao longo dos últimos 5 mil anos, até
serem desafiados pela recente revolução feminina.
A redescoberta e a reafirmação
do valor da feminilidade, tanto em homens como em mulheres,
vem evidenciando um grande potencial como força geradora
de profundas mudanças sociais. Carl Jung, discípulo
e dissidente de Freud, já tinha advertido para a
necessidade de os homens reconhecerem e libertarem esta
parte suprimida das suas personalidades, não para
fazer desaparecer as diferenças entre sexos, mas
para que o descobrimento de nossa outra metade tornasse
essas diferenças mais valorizadas e emocionantes,
fazendo-nos seres mais completos. Presentemente, na sua
sensibilidade de artista, Gilberto Gil proclamou essa mesma
necessidade em sua canção "O Superhomem":
Um dia
Tive a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quizesse ter.
Que nada, minha porção mulher que até
então se resguardara
É a porção melhor que eu trago em mim
agora
É a que me faz viver...
Quem dera, pudesse todo homem compreender, ó mãe,
quem dera
Ser o verão, o apogeu da primavera
E só por ela ser.
Quem sabe, o super homem venha nos restituir a glória
Mudando como Deus o curso da história
Por causa da mulher.
O movimento feminista ganha assim, em sua
essência, uma dimensão muito mais ampla do
que um mero movimento por direitos civis ou por igualdade
de oportunidades, destinado a promover a "conscientização
feminina". Como cogitam Willis Harman e John Hormann:
"Reafirmar a importância do feminino
é, de certa maneira, mais fundamental que qualquer
movimento social e constitui os alicerces dos movimentos
ecológicos ou pacifistas, dos projetos de combate
à fome e dos movimentos pelos direitos civis. É
um movimento básico que se afasta das organizações
hierárquicas, agressivas, exploradoras e dominadoras
que, por sua vez, estão ligadas a todos os nossos
mais sérios problemas; é um movimento que
aponta para um tipo de organização mais atenciosa,
solidária, fundamentada em parcerias, que pode nos
dar uma chance de ter um futuro global mais viável."
(1)
As quatro instituições patriarcais
identificadas por Thomas Berry (1988) - os impérios
clássicos, a instituição eclesiástica,
a nação-Estado e a corporação
moderna - tornaram-se modelos dos valores masculinos da
conquista e da dominação, mediante o uso agressivo
do poder. Segundo Berry, "essas quatro instituições
são dominadas exclusivamente pelos homens e seus
objetivos primários visam a satisfação
humana, do ponto de vista masculino. O papel da mulher na
direção de tais instituições,
quando lhe coube algum, foi mínimo." (2)
A própria construção
da sociedade patriarcal se apoia na violência estrutural,
conceito criado pelo economista norueguês Johan Galtung
(1969,1971), como pode ser visto nas estruturas econômicas
que desenvolvemos, nas estruturas sociais que apoiamos e,
em nível mais sutil, até mesmo na linguagem
corrente de trabalho, pelo emprego de palavras ou metáforas
violentas, como, por exemplo: (3)
"Precisamos mover uma guerra à
concorrência"...
"Não temos poder de fogo para disputar esse
mercado"...
"Na guerra pela conquista do mercado, os concorrentes
são os nossos inimigos"...
"É preferível perder a batalha dos preços
e ganhar a guerra da concorrência"...
"Conquistar o cliente é uma questão de
vida ou morte"...
Os valores patriarcais que dominaram nossas
instituições até agora não nos
conduziram, portanto, a decisões muito sábias,
em termos humanos, ecológicos, afetivos e espirituais.
A corporação moderna, concentrada na produção
e no consumo econômicos, substituiu as supremas instituições
humanas que tratavam do conhecimento, do significado e das
metas humanas ou espirituais das outras antigas sociedades.
Enquanto os índios iroqueses, por exemplo, tomavam
suas decisões sociais tendo em mente o bem-estar
das próximas sete gerações, as decisões
contemporâneas orientam-se primordialmente pelos resultados
financeiros de curto prazo, ou pelas pesquisas de "Ibope"
junto ao eleitorado.
Os valores "femininos", por outro
lado, contribuem para compor o nosso entendimento dos aspectos
mais profundos do funcionamento do universo, e do papel
que nele compete ao ser humano. E quais são esses
valores "femininos"? Como eles se expressam em
nossa cultura, em nossas atitudes e em nossos comportamentos?
Vejamos algumas formas de manifestação desse
jeito feminino de ser: (4)
Consciência da Totalidade
Sentir que você é uma parte integrante do mundo
à sua volta.
Conhecimento
O "processo de conhecer" tende a ser relacional
e contínuo, envolvendo o indivíduo e as outras
pessoas, a natureza e o "Ser Superior", em vez
de ser um processo de abstração intelectual.
Pensamento
Tendência a confiar na intuição e a
pensar de uma forma holística, multivariante e multidimensional.
Poder
O poder é percebido não como uma força
que podemos exercer "sobre" o outro, mas como
uma qualidade inata em qualquer indivíduo, à
disposição da criatividade. Para a perspectiva
feminina, é muito estranho tentar controlar e dominar
o universo, ou ficar obcecado por demonstrações
de "poder sobre a natureza".
Liderança
Postura que facilita e provê, não que controla
ou direciona.
Profissão e trabalho
Abordagem que tende a se orientar muito mais pelo processo
do que pelo produto.
Relações com o outro
Pressuposto da paridade, tratando o outro como igual.
À medida que se torna mais aguda a
consciência do preço que pagamos pela organização
patriarcal da sociedade, torna-se também mais perceptível
a influência feminina em algumas tendências
contemporâneas "que nos ajudam a romper com os
padrões de dominação impostos por especialistas
e autoridades; a irmos na direção da cooperação
e não tanto mais da competição; a destruir
as rígidas divisões entre patrões e
empregados; a desafiar a noção científica
de que o reducionismo é o caminho para entender as
coisas; a fazer oposição ao militarismo e
a resistir às tecnologias manipulativas."(5)
A nova política social das organizações
estará baseada no equilíbrio entre os valores
"femininos", provedores, cooperativos e atenciosos,
e os valores "masculinos", de competitividade
e agressividade, e reafirmarão a necessidade humana
de um bem-estar muito maior que o mero conforto material.
A "feminização" do
ambiente de trabalho do futuro levará as organizações
de negócio a perceberem que a prosperidade depende
da consideração dos empregados na totalidade
de sua condição humana de seres físicos,
racionais, emotivos e espirituais. Do mesmo modo, fará
com que elas adotem uma nova perspectiva quanto à
íntima integração entre o trabalho
e a vida familiar, disponibilizando tempo e recursos para
que os empregados cumpram suas obrigações
familiares, por meio de opções como a da flexibilidade
de horário, do fornecimento de creches e bolsas de
estudo para os filhos dos empregados, da assistência
à velhice e de tudo o mais que possa garantir a saúde
e o bem estar globais dos membros da sua família.
Os líderes de negócios do novo
ambiente de trabalho "serão criticamente sensíveis,
estarão em contato com o feminino e o masculino em
si mesmos e darão apoio à reorientação
de valores que o feminino representa. Nisso e em outros
aspectos, os líderes de negócios não
poderão ignorar o seu papel de líderes morais".
(6)
NOTAS
(1) Harman, Willis e John Hormann. O Trabalho
Criativo: O Papel Construtivo dos Negócios numa Sociedade
em Transformação. São Paulo: Editora
Cultrix, p.114.
(2) Ibid., p. 56.
(3) Maynard, Herman e Susan Mehrtens: A Quarta Onda - Os
Negócios no Século XXI. São Paulo:
Editora Cultrix, 1995, p. 99.
(4) Harman, Willis e John Hormann, op. cit. pp. 82-83.
(5) Ibid., p. 83.
(6) Maynard, Herman e Susan Mehrtens, op. cit. p. 29.
(*) Jorge Lessa Guimarães é
Psicólogo Organizacional, Licenciado em Filosofia
e Especialista em Recursos Humanos pela Fundação
Getúlio Vargas-RJ. É autor do livro "Qualidade
Competitiva no Brasil: Transformando Valores, Atitudes e
Comportamentos em Busca da Qualidade Total", publicado
pela Editora Casa da Qualidade-BA, 1995. Tem sido palestrante
em diversos eventos de âmbito nacional. É consultor-master
associado da EMCO -Empresa de Consultoria Organizacional.