ARTIGOS


Conferência realizada na Faculdade de Ciências da Saúde - UniCEUB, Brasília, em 14 de dezembro de 2001.

ARTIGO 5 - CONSCIÊNCIA UNIVERSITÁRIA E COMUNIDADE

Cezar Wagner de Lima Góis
Doutor em Psicologia pela Universidade de Barcelona,
Professor de Psicologia Comunitária e Psicologia do Trabalho
do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Ceará.
Assessor do Instituto Paulo Freire de Estudos Psicossociais, Ceará.


Primeiramente, devo ressaltar que a consciência, por mais que empreguemos este conceito e a consideremos uma categoria básica em Psicologia, é um tema ainda hoje cheio de controvérsias.
As perguntas sobre sua natureza, sua relação com o cérebro e suas implicações empíricas e morais, fazem parte da preocupação de cientistas e do homem comum que, em seu cotidiano, tentam explicá-la.

Por ser um tema multidimensional e multidisciplinar, apresenta enfoques bastante diferenciados, porém todos eles girando em torno de duas grandes questões: a) a capacidade do ser humano de conhecer o mundo (objetivo e subjetivo) e b) de comportar-se moralmente nele (controle de si mesmo).

Para o Dicionário da Real Academia Espanhola (1992), a consciência é: "I. Propriedade do espírito humano de reconhecer-se em seus atributos essenciais e em todas as modificações que em si mesmo experimenta. / 2. Conhecimento interior do bem e do mal. / 3. Conhecimento exato e reflexivo das coisas."

A definição do dicionário abarca os aspectos mais considerados na tentativa de compreender a consciência ao longo do tempo, ou seja, enfoca a capacidade do ser humano de conhecer a si mesmo e as coisas (cognição, reflexão), e de distinguir entre o bem e o mal (consciência moral, consciência religiosa).

Outro aspecto a considerar na definição em questão é o da compreensão da consciência como uma propriedade do espírito humano, quer dizer, que é própria do ser humano e não dos outros animais. Porém falta explicar se a consciência é própria de um espírito humano a priori (ideal) ou de um espírito que se forma e se desenvolve a partir das condições materiais da vida social, ao longo do processo de hominização e de humanização, sendo, portanto, um espírito que se origina na história.
Hoje em dia essa discussão segue por campos diversos do conhecimento, porém sem chegar a uma aproximação razoável entre os distintos pontos de vista.

Uma das discussões atuais sobre a consciência versa sobre questões relativas a seus tipos e níveis. Encontramos a consciência enfocada como: Consciência visual (Crick, 1996); consciência social (Marx, 1984), consciência cósmica (Weil, 1978), consciência mítica (Curi Beaini, 1995; Neumann, 1995), consciência ampliada pela vontade (Ouspensky, 1979), consciência intuitiva (Welter, 1998), consciência ampliada (Wilber, 1995; Grof, 1988, 1994; Suzuki, 1970), consciência oprimida (Fannon, 1979, 1983), consciência moral (Morin, 1994) e consciência política (Gramsci, 1981; Brecht, 1980). Cada autor, segundo suas orientações epistemológicas e metodológicas, inclusive ideológicas, enfoca a consciência de distintas maneiras, seja como epifenômeno ou como algo inerente aos processos psicológicos superiores, formada e desenvolvida pela atividade humana.

Não obstante as diferenças, em todos os enfoques mencionados estão presentes a consciência da realidade objetiva e a auto-consciência.

O tema da consciência é, também, fonte de controvérsias na Psicologia desde finais do Século XIX. Seu debate científico começou dentro da discussão sobre a validade dos distintos métodos de pesquisa do psiquismo, seus resultados e suas respectivas interpretações, através dos trabalhos de Wundt, William James, Sèchenov, Pavlov, Ebbinghaus, Koffka, Köhler, Watson, Spranger, Freud e outros. Parecia, inclusive, que o tema do psiquismo se confundia com o próprio destino da ciência psicológica e, de fato, se confundia, segundo Vygotski.

Para uns pesquisadores, a Psicologia podia ser reduzida aos reflexos do cérebro; para outros, a uma fenomenologia do espírito ou a uma Psicologia científica objetiva. Enquanto, por exemplo, a Reflexologia excluía os fenômenos psíquicos de seu campo de investigação, a Psicologia idealista estudava a mente excluindo tudo o mais.

Darwin (1968) explicou a origem da experiência hereditária (comportamento da espécie) mediante a seleção natural; Pavlov (1968) descreveu o mecanismo da multiplicação da experiência hereditária (reflexos incondicionados) através da experiência individual (reflexos condicionados), ou seja, estabeleceu a relação entre os dois tipos de reflexos do cérebro e explicou como se amplia a capacidade de adaptação do animal ao meio-ambiente. Sem dúvida, porém, estas duas grandes contribuições não são suficientes para explicar a conduta humana, a qual inclui, além das experiências anteriores, segundo Vygotski (1991), a experiência histórica (de gerações), a experiência social (entre pessoas) e a experiência duplicada (planejar e depois realizar). Aí estão implicadas as mudanças qualitativas produzidas na passagem da mente animal para a mente humana ou cultural, assim como o desenvolvimento dos instrumentos, da fala e, por conseguinte, da consciência.

Dado que não se pode reduzir a consciência ao estudo do comportamento animal, nem isolá-la do desenvolvimento cultural e nem das relações sociais, o tema da consciência segue sendo um problema de importância e interesse no debate atual.

De acordo com Rubinstein (1978), no inicio do Século XX ocorreu um importante debate sobre a consciência a partir do famoso artigo de William James - "Existe a consciência?". Recentemente, em 1997, o debate centrou-se na questão: "Que é a consciência?". A provocação foi feita pelo Journal of American Psychoanalysis Association, vol. 45 (3) e ocupou um espaço de 98 páginas do jornal. Desse debate participaram 12 cientistas que comentaram o tema da consciência a partir das idéias de Solms (1997), com respeito ao que é a consciência e sua distinção em consciência reflexiva e em consciência primária, além de questões relativas à relação entre percepção interna e percepção externa. É evidente em todos os artigos desse debate o intento de considerar a consciência desde distintas disciplinas.

O evidente é que, até hoje, segundo Velmans (1997), o debate implica diversas perguntas que vão desde questões teóricas sobre a natureza fundamental da consciência a perguntas empíricas sobre a sua relação com o cérebro. O problema é antigo e o debate continua.

Interessado nesse debate multidisciplinar está o "Laboratório Virtual Estudo Multidisciplinar da Consciência", do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina - Brasil, cujo objetivo é o de realizar através da internet estudos e discussões com relação ao tema.

Atualmente, avançamos muito no estudo psicológico e semiótico da consciência, como também a respeito da relação entre cérebro e atividade consciente (Rose, 1973). Um passo importante dado foi o de compreender a consciência como uma qualidade psíquica superior que requer a contribuição de diversas funções psicológicas superiores (Vygotski, 1991), e não um fato primário que se encontra em alguma parte do cérebro (Penfield, 1959) ou em pequenas formações sinápticas que, ao serem estimuladas, levam ao aparecimento de fatos de consciência (Eccles, 1970).

"Si la conciencia posee una semántica compleja y una estructura basada en un sistema; si la actividad consciente, en sus diferentes estadios, es realizada por una variedad de sistemas funcionales, que se modifican a lo largo de momentos sucesivos de nuestra vida consciente, cambiando de acuerdo con el nivel de vigilia, y en la dependencia de los propósitos y objetivos inmediatos del hombre, queda perfectamente claro que todas las tentativas de encontrar en el cerebro alguna formación especial o algún grupo especial de células que constituyan el 'órgano de la conciencia', desde el principio no tienen ningún sentido" (Luria, 1989: 198).

O importante no estudo da relação cérebro-consciência, da base cerebral da atividade consciente, é compreender não somente a contribuição de cada sistema cerebral para a atividade consciente e sua ação combinada que permite tão importante e complexa atividade vital (Schmidt, 1979; Crick e Koch, 1996), senão, também, realizar a análise psicológica das mudanças da conduta consciente, produzidas por lesões cerebrais locais. Isto significa considerar o conceito de estrutura semântica da consciência e a fala como essenciais na análise da contribuição dos sistemas cerebrais na atividade consciente (Vygotski, 1993; Luria, 1981, 1991).

"Sin embargo no cabe ninguna duda de que las teorías modernas sobre la estructura semántica compleja y basadas en un sistema funcional de la conciencia, están señalando el camino correcto para la investigación de sus mecanismos cerebrales, y que las generaciones futuras de investigadores darán una contribución esencial a la solución de ese tipo de problema." (Luria, 1989: 224).

O enfoque semiótico da consciência é básico na obra de Vygotski e de Bajtin. Juntas constituem uma valiosa e atual contribuição ao estudo da consciência (Silvestri e Blanck, 1993), sem deixar de considerar a teoria da atividade de Leontiev e o enfoque neuropsicológico de Luria, no qual concebe a integração dos sistemas cerebrais (unidades funcionais cerebrais) e sua maturação com a cultura e seu desenvolvimento mediante a aprendizagem.

Nesta direção, podemos enfocar a consciência desde a perspectiva da Psicologia Social e, para isto, concordamos com Vygotski quando propõe em suas pesquisas uma integração entre esta e a Psicologia Cognitiva. Para nós, esse esforço de integração pode levar a novos conhecimentos psicológicos sobre a origem, a estrutura e os conteúdos da consciência, além do desenvolvimento de novos métodos em Psicologia para uma análise mais objetiva da própria consciência.

Vygotski sempre se preocupou em estudar a consciência a partir de bases objetivas e, ao longo de suas pesquisas, constatou que a análise semiótica (e não o método estrutural) era adequada para estudá-la. Este método era adequado para o estudo do psiquismo animal. Além disso, para ele, os estudos subjetivos da mente não teriam significado quando isolados do contexto objetivo e de suas causas, nem tampouco da ciência que os estuda.

Partindo de sólidas bases filosóficas e científicas, propôs o problema da consciência de um modo distinto ao enfocado até então. Primeiro, porque a localizou no processo filo e ontogenético de desenvolvimento do cérebro; segundo, porque a considerava resultado da atividade prática e semiótica, e da interação social (produto cultural); e terceiro, porque a percebia como um sistema que, em seu conjunto, tem uma organização semiótica (Silvestri e Blanck, 1993).

Para Vygotski, o estudo da consciência implicava reconhecê-la em suas bases histórico-sociais, nas quais a atividade instrumental e semiótica, e a interação social, ocupam um lugar destacado, sem obviamente excluir o desenvolvimento da atividade biológica das espécies e a maturação do organismo. Isto significa compreender a consciência a partir de bases objetivas, considerando tanto o cultural e o biológico em sua gênese e desenvolvimento, como a busca de desenvolver métodos adequados de investigação, caso da análise semiótica da consciência.

Na Teoria Histórico-Cultural da mente, a consciência é uma propriedade do cérebro filogenética e historicamente desenvolvida, a última a se manifestar no sistema das funções psicológicas superiores. Para compreendê-la a partir de bases objetivas, sem redução da análise, há que considerar no ser humano a existência uma conduta genuinamente humana, cuja natureza é histórica, social e desdobrada. Esta se apresenta de três modos: o primeiro é a acumulação de experiências geracionais; o segundo trata-se da experiência dos demais (inclusive a nossa mesma), a qual está socialmente disponível; e o terceiro, diz respeito à natureza desdobrada da conduta como atividade mental e como ação externa.

Na conduta genuinamente humana temos como constituintes básicos: a linguagem e outros mediadores semióticos. Estes, ainda que dependam inicialmente do sistema geral da atividade prática, "poseen la notable capacidad de independizarse de este sistema para crear su propia construcción simbólica de la realidad" (Kozulin, 1994:109). Porém, a análise da consciência não pode se realizar fora das formas de existência concreta dos indivíduos em uma determinada realidade cultural (Bajtin, 1988).

Completamente interiorizados, os mediadores semióticos constituem a via objetiva para o estudo da consciência. Por isso a fala e seu contexto cultural são tão importantes para esse estudo. Sendo um tipo especial de estímulo e de expressão humana, a fala permite ao individuo comunicar-se e identificar-se com os demais, levando-o a conhecer primeiramente aos outros e, em seguida, a si mesmo. Podemos dizer, então, no marco da teoria histórico-cultural da mente, que na fala se encontra a fonte da conduta social e da consciência, e que o componente social da consciência (relação interpessoal) tem a primazia com relação a seu componente individual (intrapessoal).

Segundo Leontiev (1982), a consciência não antecede a atividade, nem esta se inclui posteriormente na consciência. O que cria a consciência é a interiorização da atividade prática e de seus produtos.
Aquí, "el proceso de interiorización consiste no en el hecho que la actividad externa se introduzca en un ´plano de conciencia` interna que la precede; la interiorización es un proceso en el cual precisamente se forma este plano interno" (p. 98). Avançando um pouco mais no tema, Leontiev considera que o desenvolvimento da consciência é a passagem de uma consciência primariamente construída mediante a interiorização de uma atividade primariamente realizada a uma consciência crítica (reflexiva) construída através da interiorização de uma atividade socialmente desenvolvida, quer dizer, uma atividade que se baseia na cooperação.

Outro aspecto a considerar nas contribuições de Leontiev, é a sua concepção da consciência como um tipo especial de reflexo (consciente) que se distingue dos demais reflexos porque permite a identificação das propriedades objetivas da realidade, ou seja, um reflexo que permite distinguir a realidade objetiva de seu reflexo. Isto significa diferenciar as impressões subjetivas do mundo real, favorecendo assim o desenvolvimento da percepção de si mesmo.

"La conciencia individual del hombre sólo puede existir en las condiciones en que existe la conciencia social. La conciencia es el reflejo de la realidad refractada a través del prisma de las significaciones y de los conceptos lingüísticos, elaborados socialmente" (Leontiev, 1978: 88).

Em uma de suas conclusões mais importantes, Vygotski (1991, 1993) postulou que o mais central no estudo da consciência é a análise do sentido ou significado pessoal, a relação própria do sujeito com os fenômenos objetivos conscienciados. Para ele, o significado (sentido coletivo) é supra-individual e constitui o conteúdo da consciência social, enquanto o sentido (significado pessoal) só pode ser individual, ou melhor, psicológico. Podemos dizer, inclusive, que a consciência social é uma consciência de significações, enquanto a consciência pessoal é uma consciência de sentidos. Isto não implica a separação de ambas, pois no significado o sentido se objetiva por meio da fala.

"Vygotski distingue dos componentes del significado de la palabra. El significado propiamente dicho y el ´sentido´. El significado propiamente dicho se refiere al sistema de relaciones objetivas que se formó en el proceso de desarrollo de la palabra, consistiendo en un núcleo relativamente estable de comprensión de la palabra, compartido por todas las personas que la utilizan. El sentido, a su vez, se refiere al significado de la palabra para cada individuo, compuesto por relaciones que hacen alusión al contexto de uso de la palabra y a las vivencias afectivas del individuo.

(...) El sentido de la palabra relaciona su significado objetivo al contexto del uso de la lengua y a los motivos afectivos y personales de sus usuarios. Relaciónase con el hecho que la experiencia individual es siempre más compleja que la generalización contenida en los signos." (Kohl de Oliveira, 1992:81).
O sentido em Vygotski é central e expressa a atitude do individuo para o mundo externo. Em Freire, o sentido implica a atitude para ler e pronunciar o mundo. Não significa isso que o sentido seja um componente fundamental de um sistema mental puramente cognitivo, e Vygotski nem Paulo Freire tampouco o concebiam assim. Segundo Kohl de Oliveira (1992), Vygotski entende que o sentido forma parte de um sistema dinâmico de significados, no qual o intelectual e o afetivo estão integrados, pois cada idéia contém uma atitude afetiva frente à realidade interna e externa.

Ainda dentro do enfoque histórico-cultural da mente, a consciência também pode ser compreendida, de acordo com Rubinstein (1979), como o co-conhecimento do mundo objetivo e de si mesmo, e que exige uma atitude cognoscitivo-afetiva diante do objeto que se pretende apreender, seja da realidade objetiva ou da própria vida interior do individuo. A consciência pode, ainda, ser entendida como "el saber sobre el hecho de saber, la intelección del saber" (Silvestri e Blanck, 1993:25) ou como "una existencia comprendida" (Luria, 1987:21).

Por fim, vemos que a consciência emerge da vida social e sem esta a condição humana não se realiza por meio da consciência.

"La pérdida de los sistemas sensoriales fundamentales - la vista y el oído - no destruye la conciencia. Inclusive los ciegos-sordos de nacimiento llegan a formar (a través de una educación propicia) una conciencia normal, aunque sensorialmente pobre (Meshchernyakov, 1989).

En cambio, si un niño se cría al margen de la sociedad humana, al margen de la comunicación con otros hombres, su esfera sensomotriz se mantiene indemne, pero la conciencia no llega a constituirse, como el caso del ´fenómeno Kaspar Hauser´ (Silvestri y Blanck, 1993: 32)
Por essa mesma linha de compreensão da consciência, surgindo da vida social como decorrente da atividade prática, da interação social e da comunicação entre os seres humanos, temos a obra de Paulo Freire, a qual é o resultado de uma síntese entre sua experiência de educador em vários países e seu compromisso e amor para com o povo oprimido (Hurtado, 1998; Fernández, 1998), em um sentido de busca do conhecimento integrada à luta pela libertação dos povos e das massas exploradas. Em seu trabalho vemos um esforço solidário por compreender a "realidade deshumanizadora" (que cria o individuo "coisificado", "de ser menos") e sua transformação em realidade democrática, de homens livres, de sujeitos do seu próprio atuar e de sua história, através de uma ação educativa amorosa, dialógica e problematizadora.

A Pedagogia do Oprimido, também chamada de Pedagogia do Diálogo, Pedagogia da Libertação e Pedagogia da Esperança, "la outra cara" (Holliday, 1998:51), é uma educação para a liberdade e não para a dominação e "coisificação" de seres humanos, já que considera que a vocação do ser é humanizar-se. Enfoca a educação como prática da liberdade (Freire, 1994).

Em Freire o conhecimento sem liberdade deshumaniza. A isto ele contrapõe um conhecer consciente, reflexivo, crítico e solidário que integra o individuo aos demais e a um mundo que se transforma no próprio ato de conhecê-lo. Significa um conhecer que não é depositado pelo educador no educando ("bancário"), senão um conhecer no qual educador e educando constroem o conhecimento através do diálogo e da solidariedade.

"Educar, pues, es asumir una posición gnosiológica, posición ésta del educando con el educador y para crear, recrear la nueva realidad, la realidad de los hombres en un proceso permanente de liberación." (Simões Jorge, 1981: 29).

A Pedagogia da Libertação se faz presente com toda a sua força na Psicologia da Libertação, proposta por Martín-Baró, a qual se encontra à disposição do público em sua obra organizada e apresentada por Amalio Blanco e epílogo de Noam Chomsky, cujo título é sua essência - "Psicologia de la Liberación" (1998).

Nesta obra se observa a importância de Vygotski e Freire, cujos pensamentos são recriados e transformados em um conhecimento psicológico novo, desde uma nova epistemologia até uma nova práxis, onde é claro e objetivo o compromisso do Psicólogo com a mudança da realidade social ou das condições de vida do povo explorado da América Latina.

"La Psicología debe trabajar por la liberación de los pueblos latinoamericanos, un proceso que, como mostró la alfabetización conscientizadora de Paulo Freire, entraña tanto una ruptura con las cadenas de la opresión personal como con las cadenas de la opresión social." (Martín-Baró, 1998: 297).
Podemos dizer que na América Latina o religioso, o pedagógico e o psicológico se fundem e nascem de novo na realidade social de seu povo oprimido em busca da libertação das massas exploradas, ato este que é de conquista, de conscientização. Por isso é evidente que, para completar-se no contexto latino-americano, a Teologia, a Pedagogia e a Psicologia, necessitem da palavra "Liberdade", passando assim a ser uma Teologia da Libertação (Gutiérrez, 1976; Boff, 1977), uma Pedagogia da Libertação (Freire, 1979) e uma Psicologia da Libertação (Martín-Baró, 1998).

Voltando a Paulo Freire, observamos em sua pedagogia dois grandes pilares que a sustentam e garantem sua totalidade e grandiosidade: o conhecimento crítico e a conscientização.
O conhecimento crítico como ato gnoseológico que implica uma atitude ativa e uma ação transformadora sobre o objeto cognoscível. É um conhecimento que em suas raízes é problematizado e situa o homem e a mulher no mundo que transformarão conscientemente.

"El conocimiento aparece como categoría principal en el enfoque político-pedagógico de Freire. Su preocupación constante es descubrir cómo los seres humanos, en particular las capas populares, se apropian del conocimiento; cómo lo producen; cuál es el valor del mismo para la formación de la conciencia crítica; de qué modo él puede ayudar en el proceso de organización del pueblo y en la transformación de la realidad." (Damke, 1995: 22)

O conhecimento, aqui, surge de uma realidade entendida, segundo Kosik (1976:3), como "...uma totalidade concreta que se transforma em estrutura significativa para cada fato ou conjunto de fatos." O todo não é algo estático, mas toma forma e se refaz dialeticamente como um todo, permitindo assim que os fatos sejam compreendidos racionalmente, não como fatos isolados, senão como partes de algo maior que se vai construindo e se transformando no próprio ato de transformar a realidade dos fatos.

Para Freire (1994b), o ato de conhecer é o ato de ler e nomear a realidade, pronunciar o mundo; é também lhe dar um sentido e apropriar-se dela. Segundo Aguilar (1998), ler "es un proceso dialéctico que sintetiza la relación existente entre conocimiento-transformación del mundo y conocimiento-transformación de nosotros mismos" (p. 113). Enquanto a conscientização ou aprofundamento da tomada de consciência (Freire, 1994a, 1979; Simões Jorge, 1981) é o processo de pronunciar a palavra com os demais (diálogo), uma palavra que se encontra enraizada na experiência de vida de quem a pronuncia (Fiori, 1995). Não é uma simples tomada de consciência, mas sim o distanciar-se para explicar a realidade e, ao mesmo tempo, o aproximar-se para transformá-la. Não surge como resultado do simples desenvolvimento econômico, já que necessita da presença participante do individuo em sua realidade social.

Na conscientização a realidade é objeto do conhecimento e o sujeito assume a posição epistemológica, e ambos formam um todo dialético com a ação transformadora.

"No hay conscientización sin el descubrimiento de la realidad objetiva, en cuanto objeto de conocimiento de los sujetos involucrados en su proceso; tal descubrimiento, aunque de él surja una nueva percepción de la realidad, desnudándose, aún no basta para reconocer la conscientización. Así como el ciclo gnoseológico no se acaba en la etapa de la adquisición del conocimiento existente, pues se prolonga hasta la fase de la creación del nuevo conocimiento, la conscientización no puede detenerse en la etapa del descubrimiento de la realidad. Su autenticidad tiene lugar cuando la práctica del descubrimiento de la realidad constituye una unidad dinámica y dialéctica con la práctica de la transformación de la realidad." (Freire, 1994b: 103)

Freire considera que o aprender se refere ao conhecer as significações e suas relações, mas a conscientização tem lugar quando se constrói o sentido dessas significações e de suas relações. Para ele, nesse caso, se encontra a educação e não somente o ensino.
Para Sanders (1968), a conscientização significa um "despertar da consciência, uma mudança de mentalidade", quer dizer que o homem compreende e atua criticamente em sua realidade (físico-social). É daí que obtém sua própria dignidade e valor.

O processo de conscientização tem como finalidade desenvolver a consciência crítica, permitir ao individuo, junto com os demais, construir-se como sujeito de sua história e enraizar-se nela.
O termo "conscientização", apesar de não ter sido proposto por Freire, foi por ele adotado e divulgado dentro de sua concepção de educação. Ele foi criado por uma equipe de professores do Instituto Superior de Estudos Brasileiros - ISEB (1964) formada, entre outros, por Álvaro Pinto (Filósofo) e o Professor Guerreiro. A definição e tradução para o inglês e francês foram realizadas por Don Hélder Câmara, ex-Arcebispo de Recife e Olinda. Aos poucos o termo foi adquirindo aceitação internacional e, hoje, é amplamente empregada em diversas línguas.

Baseados na obra de Paulo Freire e contribuindo com ela, outros autores, tanto em Educação (Fiori, 1981), Filosofia (Dussel, 1977), Ciências Sociais (Leis, 1998) e Economia (Kabeer, 1998), como em Psicologia Social e Psicologia Comunitária (Martín-Baró, 1998; Lane, 1983), trataram ao longo do tempo a conscientização como uma categoria central na participação social e comunitária. Como por exemplo, Martín-Baró problematiza a conscientização como um processo psicológico e social, "um movimiento dialéctico, personal y comunitário Del hombre frente a la realidad histórica em sus dimensiones esenciales" (1998:138), enquanto Lane e Sawaia (1991) a entendem como algo relativo à educação. Com um enfoque mais psicológico, Sawaia (1994) considera a conscientização como um processo que "deve contemplar desejos, necessidades e emoções individuais e coletivas" (p.50).

Ao problematizar o conhecimento e a conscientização, Freire (1994, 1980, 1979) e outros autores mencionados anteriormente, enfocam o problema da consciência na dialética indivíduo-mundo, na cultura, aí concebendo como fundamentais a comunicação, o diálogo, a problematização, a transformação social e a solidariedade.

A consciência em Freire, como em Vygotsky, é a condição primeira do humano, e em seu desenvolvimento está a possibilidade de autonomia e de liberdade. Não se constitui como epifenômeno, senão que se origina na dialética do concreto, numa realidade histórico-social. A consciência é resultado do conjunto das relações que o individuo estabelece com o mundo ao longo de sua vida, propiciando a ele determinar e explicar sua relação com respeito ao próprio mundo que o rodeia, assim como permitir a compreensão de si mesmo nesta relação.

A teoria da consciência de Freire parte da interação consciência-mundo, na qual a consciência é consciência de ..., e se constitui como tal mediante suas relações com outras consciências.

"La conciencia es conciencia de algo y para lo cual se dirige su intento. La conciencia de sí de los seres humanos implica en la conciencia de las cosas, de la realidad concreta en que se encuentran como seres históricos y que ellos aprenden a través de su habilidad cognoscitiva.

El conocimiento de la realidad es indispensable al desarrollo de la conciencia de si y este al aumento de aquél conocimiento." (Freire, 1979: 144 y 145)

Por compreender a consciência enraizada em um processo histórico-cultural, Freire buscou entendê-la na realidade da América Latina. Observou que a consciência social das sociedades latino-americanas se caracterizava, em geral, pela dependência e auto-negação. No caso do Brasil, foi até as suas raízes históricas para compreender as conseqüências atuais de todo o processo de colonização e escravismo (Freire, 1994a), dentre essas conseqüências uma característica muito forte de imitar e valorizar o comportamento dos colonizadores, como já havia demonstrado Fannon (1983) em seu livro "Máscara branca em rosto negro".

Freire viu em sua análise que o movimento da consciência social de tais sociedades podia ser compreendido a partir do esforço que realizam para se manter dependentes, opor-se superficial e emocionalmente, ou buscar a autonomia e a integração com a realidade, distanciando-se com profundidade da herança colonial.

Ele percebeu que as sociedades latino-americanas podiam ser agrupadas em: fechadas, em transição e abertas, sem negar a presença dos três tipos de agrupamento em uma só sociedade. Aqui se refere a um modo predominante, mais característico do movimento da consciência social das sociedades colonizadas.

A sociedade do tipo fechado é caracterizada por: alienação cultural; dependência; elites distanciadas do povo; superposição das elites à sua realidade social; o povo está "imerso" ou sem capacidade de decidir a quem corresponde uma mínima tarefa na sociedade; o povo é dirigido pelos apetites das elites que estão sobre ele; o povo é incapaz de conhecer a si mesmo; predomínio da importação de modelos; ausência de diálogo (sociedade anti-dialógica); é uma sociedade exportadora de matérias-primas; depredadora; predomina o autoritarismo; é conformista; o homem se encontra dominado pelo poder exterior; há pouca mobilidade social ascendente e alarmantes índices de analfabetismo; a ênfase é na sobrevivência.

A sociedade em transição é aquela em que predominam as seguintes características: embate sectário entre o velho e o novo (forças reacionárias e progressistas); avanços e retrocessos que confundem e provocam medo (ditaduras); insistência para novos temas e novos rumos; industrialização incipiente; acirramento das contradições sociais e surgimento de atitudes sociais de opção; clima emocional, sectarismo e acriticismo direita-esquerda; otimismo ingênuo e, às vezes, desesperação; incapacidade de criar projetos autônomos de vida e busca de transplantes inadequados (receitas, modelos do exterior) para a solução dos problemas de seu contexto; é utopicamente idealista para tornar-se depois pessimista e desesperada; atitudes de inferioridade em suas gerações mais velhas e desencadeamento de forças intensamente emocionais que se prolongam no irracionalismo; aparecimento de instituições assistenciais que se tornam assistencialistas e presença da tomada de consciência, de uma consciência transitiva.

Quanto à sociedade do tipo aberto, temos as seguintes características: relação das elites com o povo e captação crítica das tarefas de seu tempo e de seu contexto; renúncia aos otimismos críticos e aos fanatismos; elevação da auto-estima e da esperança (auto-confiança); é uma sociedade de comunicação e diálogo; volta-se sobre si mesma e se descobre inacabada; o povo participa de seu processo histórico, se torna sujeito e não objeto; há integração e vivência comunitária; exercita a democracia.

"Para comprender los niveles de conciencia debemos considerar la realidad histórico-cultural como una superestructura en relación con una infraestructura. Debemos, por tanto, tratar de discernir de manera relativa, más aún que de manera absoluta, las características fundamentales de la situación histórico-cultural a que tales niveles corresponden.

No tenemos la intención de emprender el estudio de los orígenes y de la evolución histórica de la conciencia, sino de hacer un análisis concreto de los niveles de la conciencia en la realidad latinoamericana." (Freire, 1980: 63)

Analisando a consciência social (fechada, transitiva e aberta) das sociedades latino-americanas, Paulo Freire viu que o discurso e a ação particular dos grupos e dos indivíduos podiam, também, ser compreendidos a partir das mesmas características dos tipos de sociedades mencionados antes, demonstrando com isso a íntima relação (dialética) entre consciência social e consciência individual.
Ele compreendeu que o movimento que uma sociedade realiza para passar de uma condição fechada, semi-intransitiva, a uma condição transitiva e aberta, se reflete, também, no esforço que o individuo realiza para se desenvolver como sujeito de sua realidade, ou melhor, no esforço de passar de uma consciência pessoal fechada a uma consciência pessoal transitiva e aberta. De um lado, temos um fato social; de outro, temos um fato psicológico. Não são eventos paralelos, pois o que temos aí é uma relação dialética entre o social e o psicológico, entre o coletivo e o individual.

Diante de tal observação, Freire (1994a, 1994b, 1980, 1979) passou a identificar os diversos modos de vida cultural (consciência social) e os diversos movimentos da consciência pessoal, assim chegando aos três níveis de consciência considerados em sua obra: semi-intransitivo mágico; transitivo ingênuo e transitivo crítico. Para cada nível de desenvolvimento cultural corresponde, em geral, o mesmo nível de consciência individual (Ex. Em uma comunidade rural com predominância da consciência fechada, a consciência individual comumente encontrada em seus moradores é a semi-intransitiva mágica).

Podemos dizer que os níveis de consciência pessoal surgem das condições históricos-culturais de uma sociedade e das experiências e vivências do individuo nessa mesma realidade, na qual se encontram implicados o maior ou o menor trânsito individuo-mundo. A passagem do primeiro nível (mágico) ao segundo nível (ingênuo) é a tomada de consciência; e do segundo nível ao terceiro (crítico) é a conscientização ou aprofundamento da tomada de consciência. A passagem de um a outro se realiza mediante a atividade prático-reflexiva. O contrário é a alienação (Mattos Monteiro, 1994; Codo, 1990; Meszaros, 1981), a permanência no nível da consciência mágica, a parcializaçao da realidade por uma consciência dominada, submissa, característico de uma sociedade do tipo fechado, a qual impede o fluxo indivíduo-mundo.

A seguir, apresentaremos as principais características de cada um dos níveis de consciência pessoal propostos por Paulo Freire.

a. Consciência semi-intransitiva ou mágica
Incluye a todas las formas vegetativas del vivir. Es ambigua con sus temores y desconfianzas. Es una conciencia de poco tránsito, sumisa y alienada.

En la captación de la realidad el individuo no se aleja para conocerla, su conciencia es casi inmersa, casi adherente, mágica, supersticiosa y fatalista.

Explica el origen de los hechos mediante una realidad superior (Dios, destino, azar). Se entrega a la realidad de modo irracional, acomodado, apático y con baja autoestima. Sin establecer ningún compromiso con ella.

"Lo que pretendemos significar con la conciencia ´intransitiva´ es la limitación de su esfera de comprensión. (...) El discernimiento se dificulta, se confunden los objetivos y los desafíos del exterior, y el hombre se hace mágico, por no captar la auténtica causalidad." (Freire, 1994a: 53)
b. Conciencia transitiva ingenua

Amplía la capacidad de aprehensión y de respuesta a las sugestiones que parten de su contexto. Los intereses y preocupaciones de los individuos se dirigen hacia las esferas más amplias que en lugar de limitarse a la simple esfera vital, vegetativa.
Se caracteriza por la mejora de la relación individuo-mundo, acepta los desafíos, se abre a los estímulos externos, tiene desprecio a toda forma de concepción científica, piensa que sabe todo sobre la realidad y se satisface con las experiencias (es predominantemente empírica).

Su captación de la realidad se basa en la simplificación de los hechos, pues no investiga ni profundiza en las causas. Ve la realidad de manera estática. Actúa emocionalmente y saca conclusiones rápidas y superficiales. Es polémica, asistencialista y usa de manipulación emocional. Considera el pasado mejor que el presente y no acepta esquemas impuestos. Es deseosa de libertad, de superar el silencio y es capaz de compromiso

La conciencia ingenua caracteriza un momento en que el individuo se descubre en la situación de opresión y alienación y, a la vez, un momento que lo impulsa a salir de esa situación histórico-social y personal, aunque sin claridad y profundidad en el análisis de la realidad.

La deformación de la conciencia ingenua, por su inseguridad, lleva a la irracionalidad y al fanatismo. Por eso no respeta la opción de los otros. Por eso su aspecto es emocionalmente exagerado y místico.

"La conciencia transitivo-ingenua tanto puede evolucionar hacia la transitivo-crítica, característica de la mentalidad más legítimamente democrática, como puede distorcionarse hacia esa forma rebajada, ostensiblemente deshumanizada, característica de la masificación. Es la conciencia fanatizada de Marcel (Gabriel Marcel, Los hombres contra lo humano)." (Freire, 1994a: 57 y 58)
c. Conciencia transitiva crítica

En este nivel de conciencia el hombre asume el deber, como sujeto, de hacer y rehacer el mundo. Busca ubicarse de manera crítica en la historia, mediante el diálogo y el compromiso, es decir, la solidaridad con los hombres hacia la búsqueda incesante de humanización por reconocerse incompleto.

La principal característica de la conciencia crítica es la profundidad en la explicación del mundo por principios de la razón. Permite a los hombres la reflexión crítica sobre sus propios actos. Sin embargo comprende la integración con la realidad y el interés por la vida social y política, por lo tanto implica el individuo como ser-del-mundo, ser-en-el-mundo y ser-con-el-mundo.

La conciencia crítica ve la realidad mutable, por eso investiga, verifica, indaga, verifica, revisa. Presiona la realidad, profundiza el análisis de problemas y no se satisface con las apariencias. Está libre de prejuicios en la captación, en el análisis y en la respuesta. Es inquieta y auténtica, no transfiere responsabilidad, delega y acepta delegación, es dialógica, se nutre del diálogo, es dialéctica, acepta lo nuevo y las contradicciones - se compromete con la realidad.

En la conciencia crítica el individuo busca integrarse a la realidad y comprometerse con ella. Mediante su inserción en el mundo acepta las exigencias y los desafíos de la realidad e intenta superarlos a través de una acción crítico-transformadora de esa misma realidad.

"La conciencia crítica sólo puede producir esa transformación a través de una real ´praxis´ (acción y reflexión), del mismo modo que solamente a través de esa ´praxis´ la conciencia puede llegar a ser una conciencia real." (Freire in Simões Jorge, 1981: 53)

Para Freire (1981), la comunicación reflexiva es fundamental. El diálogo es la base de la comunicación entre los hombres y en él se encuentra el núcleo del fenómeno vital y de una existencia no solitaria (compartida) y creadora. Para Freire "nadie ignora todo, nadie sabe todo, todos nosotros sabemos alguna cosa. Todos nosotros ignoramos alguna cosa" (in Vitón de Antonio, 1998: 62). Por eso la exigencia del diálogo, que es también, según Flecha (1997), un diálogo igualitario.

"El diálogo es este encuentro de los hombres mediatizados por el mundo, para pronunciarlo, no agotándose, por tanto, en la relación yo-tu. Esta es la razón por la cual no es posible el diálogo entre los que quieren la pronunciación del mundo y los que no la quieren; entre los que niegan a los demás el derecho de decir la palabra y los que se ven negados de este derecho. Es necesario primero que, los que así se encuentran negados en el derecho primordial de decir la palabra, reconquisten ese derecho, prohibiendo que este asalto deshumano prosiga. Es ´diciendo´, ´pronunciando´ el mundo, que los hombres lo transforman, el diálogo se impone como camino por el cual los hombres adquieren significación en cuanto hombres. Por eso, el diálogo es una exigencia existencial. Y, si él es el encuentro en que se solidariza el reflexionar y el actuar de sus sujetos dirigidos al mundo a ser transformado y humanizado, no puede reducirse a un acto de depositar ideas de un sujeto en el otro, ni tampoco volverse simple cambio de ideas a ser consumidas por los que intercambian. (...) La conquista implícita en el diálogo es la del mundo por los sujetos dialógicos, no la de uno por el otro.
Conquista del mundo para la liberación de los hombres." (Freire, 1981: 93).

En el diálogo el ser humano es un ser abierto, comunicativo, y que solamente así hombres y mujeres se encuentran para juntos conocer y cambiar el mundo. Poner obstáculos a la comunicación significa hacer de los hombres objetos, cosas (Damke, 1995). Ello implica decir que impedir el diálogo es bloquear la intersubjetividad, la comunicación entre las conciencias, la posibilidad de hacer una sociedad de hombres libres, por lo tanto, democrática.

El diálogo va más allá del intercambio verbal, se vuelve un mecanismo de interiorización de la realidad social, en su diversidad y cambio, y a la vez de expresión del individuo en el mundo.

Dentro del diálogo se encuentra la problematización, una manera de preguntar a partir del reconocimiento de la existencia y del conocimiento que el otro tiene del mundo. El énfasis puesto en la pregunta es grande, al contrario que en la respuesta. En "Por una Pedagogía de la Pregunta" (Freire y Fagundez, 1985) es evidente la pregunta como camino de construcción del diálogo y de descubrimiento (decodificación) del mundo a ser transformado.

Lo que se busca con el diálogo (científico, técnico o de sentido común) es la problematización del propio conocimiento en su relación con la realidad concreta en que se origina y/o se destina, para comprenderla y transformarla solidariamente (Freire, 1993).

La problematización se impone como una exigencia fundamental para la construcción del saber. En ella el mundo es percibido como un problema, como un desafío a superar, y no como algo que ya nos viene dado y por eso es inevitable.

En la "Pedagogia da Esperança" (Freire, 1994b), vemos que la problematización presupone un respeto al contexto cultural y al conocimiento allí existente. Partiendo del aquí-y-ahora del educando, construimos con él un diálogo problematizador. Cada momento se vuelve interrogante y la palabra circula de uno a otro en búsqueda de la superación del problema planteado en el diálogo.
"El diálogo y la problematización no adormecen a nadie. Concientizan. En la dialoguicidad, en la problematización, educador-educando y educando-educador desarrollan ambos una postura crítica, de la cual resulta la percepción de que todo este conjunto de saber se encuentra en interacción. Saber que refleja al mundo y a los hombres, en el mundo y con él, explicando al mundo, pero sobre todo, justificándose en su transformación." (Freire, 1993: 61 y 62)

El ser humano es capaz de descubrir la realidad modificable y percibirse capaz de modificarla. Ésta es la condición primera que hace del individuo un sujeto de su realidad, que es capaz de optar en su relación con el mundo.

En la Pedagogía de la Liberación, así como en la Teoría histórico-cultural de la mente, vemos que el punto de partida para el desarrollo del individuo es su acción transformadora del mundo. Freire, posiblemente sin conocer a Vygotski, coincide con él, pues ambos desarrollan su pensamiento a partir de una concepción histórico-cultural del hombre, en la cual no somos seres de adaptación sino seres de transformación.

Para ellos, la conciencia se origina en el acto de transformar la realidad y no en la adaptación. Por ello es esencial la condición transformadora para el desarrollo del individuo, pues ésta al ser impedida de manifestarse lleva al bloqueo del desarrollo de la conciencia social (sociedad cerrada) y de la conciencia personal, no en términos absolutos.

Freire nos muestra que la transformación de la realidad, en la perspectiva de la liberación, no es un acto solitario, individual (individuo-objeto), sino colectivo, comunicativo, y más aún, es un acto solidario, comunitario y no dominador (individuo-individuo con el mundo). Ello implica entonces que necesariamente hay una exigencia de diálogo y de solidaridad en la acción transformadora, en la construcción de la realidad social (Freire, 1993).

Analizando las concepciones de conciencia en Vygotski y Paulo Freire, vemos que entre ellas no hay una oposición sino una ampliación y adecuación a las cuestiones del desarrollo socioeconómico y de la educación, especialmente en los países más pobres.

Estos autores tratan los mismos aspectos esenciales de la conciencia y de su desarrollo, tales como su origen cultural, la distinción entre significado y sentido, el papel de la interacción social, el diálogo, la cooperación, las condiciones culturales de su desarrollo, la relación entre aprendizaje y desarrollo, la perspectiva transformadora de la realidad cultural, la naturaleza esencialmente transformadora de la conciencia, la relación entre actividad y conciencia y las bases y los elementos implicados en la mediación pedagógica de la relación entre conciencia y mundo (actividad práctica, lenguaje, base de orientación activa, zona de desarrollo próximo, problematización y diálogo).

Apoyados entonces en estos autores, consideramos que la conciencia personal es la propiedad de la psique que da sentido tanto a la vida psíquica, como a la propia actividad externa, y que ésta, a su vez, orienta y da la sustancia de la propia conciencia. La conciencia, por lo tanto, está formada bajo determinadas condiciones de la actividad práctica y social y de la propia psique. Permite al individuo aprehender la realidad objetiva y la vida interior, y distinguirlas a través de su inserción cada vez más profunda e intencional en el mundo, desde la infancia y durante toda la vida. La conciencia tiene un carácter activo, no surge de la adaptación, sino del proceso de apropiación de la realidad y del desarrollo cultural.

Diante do exposto sobre a consciência individual e a consciência social, compreendemos a consciência universitária como consciência social, como consciência coletiva de um saber reflexivo (crítico) e de uma responsabilidade social construídos sob parâmetros científico, comunicativo e ético.

Isto implica um saber e uma responsabilidade que não excluem o compromisso com o próprio saber e com a sociedade em que vivemos. Mesmo assim, é comum o distanciamento das nossas universidades com relação aos problemas da população, das minorias, das comunidades e de segmentos sociais, da prioridade do ensino e da pesquisa sobre a extensão.

Porém, é preciso compreender que a extensão é a função que orienta a universidade para o seu entorno, para os problemas reais da sociedade. Além de enraizar a universidade no concreto da realidade social, estimula a pesquisa e o ensino na direção dos problemas, necessidades e anseios da população brasileira.

Por isso não se pode separar nenhuma das funções da universidade, sob pena de fragmentar ou parcializar o processo de construção do conhecimento que, obviamente, passa pela transformação da realidade social.

Aproximar a universidade da sociedade é uma tarefa fundamental, produzir conhecimento e servir ao povo é a prioridade de toda universidade, produzir um saber a serviço da ciência e do nosso povo.

Aproximar, integrar saberes diferenciados, construir e fortalecer vínculos concretos com a população, não significa um ato de sobrepor o conhecimento acadêmico ao conhecimento popular. Significa extender, fazer extensão, não como forma de dominação, mas como comunicação, como diálogo, como ato reflexivo, como ato solidário, como construção compartilhada de um conhecimento apropriado aos que compartilham e à própria situação a ser compreendida e transformada, aí respeitando o processo histórico-cultural do lugar em questão.

Nesse sentido, a universidade aponta para um outro tipo de compromisso social e de desenvolvimento da sociedade, que não é simplesmente técnico-científico, é também educativo, participativo, conscientizador.

Desse modo, as universidades tem um importante papel dentro das estratégias de desenvolvimento nacional, regional ou local, aí contribuindo mediante as suas três funções básicas: pesquisa, ensino e extensão.

Reduzindo a abrangência desse desenvolvimento, sem desarticulá-lo, temos o desenvolvimento local, o mais próximo de cada universidade, que é um modelo de desenvolvimento baseado em estratégias de ação local (Braga, 1995), as quais envolvem processos de identificação-simbolização e de ação-transformação, de conscientização, de empoderamento, de cooperação comunitária e de fortalecimento da identidade cultural e de lugar.

O processo de desenvolvimento local (de crescimento endógeno) não é algo fácil de ser alcançado, mesmo assim é considerado vital nas estratégias de cooperação e desenvolvimento, como resposta aos novos desafios sócio-econômicos do mundo atual, especialmente os de integração comunitária dos mercados e das culturas locais, e os da exclusão social (desemprego e fome).

O desenvolvimento local implica, de fato, na participação social local, processo este necessário ao desenvolvimento integrado e auto-sustentado, o qual não é meramente econômico, senão, fundamentalmente, humano. Um desenvolvimento que é humano, social, auto-sustentado e solidário.
"Participar, significa que las personas intervengan en los procesos económicos, sociales, culturales y políticos que afectan a sus vidas y que, de manera permanente, tengan la posibilidad de tomar sus propias decisiones.

En el marco de la cooperación para el desarrollo, la participación es un instrumento y al mismo tiempo un objetivo que convierte a las personas implicadas en sujetos de su propio desarrollo.
La suma de impactos de los proyectos y acciones de desarrollo en una comunidad son, o deberían ser, la expresión de la voluntad e iniciativa de sus individuos. El objetivo es que los resultados sean, además de efectivos, representativos de la voluntad colectiva." (Documentos Intermon, 1995: 23 y 24)

Reconhecemos a importância da ação local como essencial às estratégias de desenvolvimento de um país, porém ainda é necessário aperfeiçoá-la na perspectiva de uma compreensão mais subjetiva da realidade local, isto é, ver que as localidades são realidades profundamente humanas e simbólicas, sendo por isso um erro pensá-las somente em termos sociais e econômicos. A realidade local possui história e cultura próprias, identidade social e de lugar, sendo formada por uma rede de relações peculiares, simbólicas, inclusive, afetivas. Nesse lugar existe uma concepção particular de realidade e de futuro que não pode ser desconsiderada ou vista superficialmente por um outro tipo de saber externo.

Dentro da concepção de desenvolvimento local, o desenvolvimento comunitário adquire maior significação e eficácia por integrar-se a uma estratégia de maior impacto sócio-econômico e político. Passa a ter uma aceitação institucional mais ampla que a de assistência social e de simples resolução de problemas sociais específicos. Adquire, inclusive, um papel relevante nos esforços de desenvolvimento econômico de uma região ou município.

Porém, mesmo integrado a uma estratégia de desenvolvimento econômico, o desenvolvimento comunitário continua tendo, a nosso ver, o objetivo último de desenvolvimento do sujeito da comunidade, aí significando que o desenvolvimento tem o sentido de consciência, de conscientização e de cidadania, perspectiva esta que impede o simples ajuste dos moradores da comunidade aos interesses externos de desenvolvimento daquela região, município ou comunidade.
O desenvolvimento de comunidade é um conceito que remonta à noção de comunidade do princípio do século XX. Ao longo deste século e até hoje, tomou diversas formas, sendo considerado pela ONU, na década dos 60, uma importante estratégia de desenvolvimento que, segundo Rueda Palenzuela (1989), significa o esforço de integrar população local, governo e universidades, com o objetivo de melhorar as condições sócio-econômicas da comunidade, aí considerada sua integração às estratégias de desenvolvimento nacional.

Trata-se de concentrar e utilizar os esforços locais dentro de uma estratégia de combate à pobreza e de desenvolvimento de uma nação (PNUD, 1997; Abranches e outros, 1987). Nessa estratégia de desenvolvimento comunitário, em geral, são considerados alguns aspectos chaves:
1. A dimensão econômica da comunidade;
2. As relações sociais, as instituições e o tempo livre;
3. A cultura, o modo de vida, história, símbolos e ideologias.

A partir daí se elaboram estratégias que levam em consideração a capacitação técnica, a organização das estruturas e processos sociais e econômicos, e a educação, sobretudo dirigida à conscientização e à cidadania.

Atualmente, existem controvérsias acerca de se o desenvolvimento comunitário deve ser uma ação de fora para dentro da comunidade, sem considerar fundamental sua história, cultura e capacidade; ou se a iniciativa, controle e sentido do desenvolvimento comunitário sejam da própria comunidade. Esse debate é importante porque, em geral e com poucos resultados positivos, a iniciativa e o rumo desse desenvolvimento estão nas mãos do governo ou de outras agências externas, como ONGs e universidades, e não nas mãos da comunidade.

O importante, a nosso ver, é que haja uma integração e uma relação pedagógica entre agente externo e comunidade, na qual se reconheça o papel e a importância de cada interlocutor na definição do rumo e do modo de desenvolvimento apropriados à realidade sócio-cultural e ambiental do lugar. O sentido do desenvolvimento e o controle da ação devem ser da comunidade (D´Ávila, 1996) ou, pelo menos, definidos e compartilhados de comum acordo. Isso implica em um desenvolvimento participativo, auto-sustentável, de busca de autonomia local, de inter-dependência e não de dependência ao exterior da comunidade.

O desenvolvimento comunitário não se limita à própria comunidade, mas a entende inserida e integrada a um desenvolvimento maior, o desenvolvimento local (Albuquerque, 1998) que, no nosso entender, é o desenvolvimento do município.

À guisa de conclusão, posso dizer que os conceitos de consciência social e de consciência individual, de desenvolvimento, de comunidade e de universidade, estão entrelaçados e se situam, também, na esfera da consciência universitária que, para mim, a entendo como uma consciência coletiva crítica e moral, geradora de um tipo de conhecimento e promotora de um desenvolvimento que, além de fazer avançar a própria ciência, serve, de servir, ao conjunto da sociedade, sem exclusão.

Busquei situar a consciência desde a teoria histórico-cultural da mente e a educação dialógica, para alicerçar uma compreensão de consciência social e de consciência individual na perspectiva da construção de formas de atuação institucional (universidade), grupal e pessoal (professores e estudantes) que tenham como fundo comum: o compromisso social, a participação social, o diálogo, a problematização, a conscientização e a cidadania - a construção de sujeitos da realidade.

Que a consciência universitária possa emergir cada vez mais do exercício das funções de pesquisa, ensino e extensão, que seja cada vez mais crítica e moral, e que integre cada vez mais a universidade ao seu entorno.

 

 

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