ARTIGO 7 - CONSTRUINDO A DEMOCRACIA
NAS ORGANIZAÇÕES
Ruy de A. Mattos
Psicólogo Organizacional e
Consultor de Empresas
A construção da democracia
não pode ocorrer somente em nível das relações
da sociedade com o Estado, seja através da interdependência
e autonomia entre os três poderes da república,
se por meio das eleições de nossos dirigentes
e legisladores.
Uma sociedade será tão democrática
quanto mais democráticas forem suas instituições
e suas Organizações públicas e privadas.
É preciso coragem, despreendimento
e persistência para construir os valores da democracia
no âmbito das relações de trabalho que
se estabelecem entre dirigentes, chefias e servidores nas
Organizações públicas e entre patrões,
gerentes e empregados, nas empresas privadas. E não
basta a substituição do rótulo de "empregado"
ou "servidor" para o de "'colaborador"
como se tem feito, cinicamente, em muitas instituições,
sem que isto de fato represente qualquer mudança
nas relações de poder.
A democracia nas Organizações
é construída sobre três pilares: a legitimidade,
a participação e a simetria.
A legitimidade indica o nível de aceitação
do líder por seus liderados, sendo assim, a base
da autoridade, enquanto relação de poder que
garante o cumprimento natural das decisões por aqueles
que irão executá-las. Nas organizações,
a legitimidade pode ser construída sobre o reconhecimento
da competência gerencial. A eleição
é a síntese desse reconhecimento, que se traduz
no voto de confiança que os eleitores depositam no
candidato, enquanto futuro gestor. Ainda pouco usada no
âmbito organizacional, a eleição é
a manifestação mais clara da legitimidade.
A participação é o fator
que revela o grau de adesão voluntária dos
liderados na construção e implementação
das decisões organizacionais. É de sua natureza
ser consciente, do contrário, teremos no lugar da
participação, a execução obediente,
desprovida de entusiasmo.
A participação é ação
coletiva partilhada conscientemente. Quando ocorre, seus
agentes assumem completa responsabilidade pelos êxitos,
fracassos, sacrifícios e júbilos de cada empreitada.
Uma organização democraticamente
dirigida tem na participação sua principal
característica. Seus funcionários ou empregados
fazem do trabalho um compromisso de cidadania com a realização
do bem comum, que se expressa na satisfação
da comunidade e no melhor atendimento ao cliente.
A simetria de poder entre interlocutores
é o fator responsável pela construção
de relações de mútuo respeito entre
líderes e liderados. Quando a simetria é mantida
em grau elevado, a liderança é fortalecida
com a comunicação e o diálogo. Do contrário
enfraquece-se em seus valores democráticos e passa
a realçar seu lado autoritário e até
mesmo despótico, ao atingir o extremo isolamento
- "a solidão do gabinete". Desse modo,
ao afastar-se psicologicamente de seus liderados, o líder
mitifica-se e corre o risco de ser idolatrado ou repudiado
por estes.
OS FATORES DETERMINANTES DA DEMOCRACIA NAS
ORGANIZAÇÕES
Queremos destacar dois fatores que, ao nosso
ver, determinam em grande parte o processo de democratização
das Organizações: a capacidade de aprendizagem
organizacional, que se expressa na produção
e na disseminação do conhecimento; o desenho
organizacional, que se manifesta nos regulamentos e normas
de conduta, na designação de autoridade e
responsabilidade e no modelo de comando e controle.
A Aprendizagem Organizacional
Quando se percebe que a qualidade do trabalho
é diretamente proporcional ao nível de conhecimento
produzido e disseminado entre as pessoas que o realizam,
a aprendizagem organizacional aflora nas Organizações.
As pessoas são estimuladas a romper barreiras construídas
pela divisão hierárquica e burocrática
do trabalho.
Na atual era do conhecimento em que vivemos,
conhecer é cada vez mais sinônimo de poder.
O grande desafio da construção da democracia
é criar mecanismos gerenciais, culturais e estruturais
que substituam a centralização do conhecimento
nos altos escalões decisórios e o dissemine
por toda a Organização, com ênfase na
qualificação daqueles servidores ou empregados
que se encontram nas fronteiras da Organização
com seu meio-ambiente, atendendo face-a-face os clientes.
Ao criar redes de aprendizagem disseminadoras
de conhecimentos, habilidades e atitudes, interligando os
vários níveis e unidades, estaremos substituindo
as ligações burras, repetitivas e disciplinadas
do autoritarismo burocrático que manda e controla,
por vínculos inteligentes, ricos de significado e
de diálogo, típicos de relações
de trabalho respaldadas na interdependência e no comprometimento
mútuo, bases da democracia organizacional.
O Desenho Organizacional
O organograma é a representação
gráfica da distribuição de poder na
Organização. Sua forma mais tradicional é
a pirâmide hierárquica que revela que as pessoas
que desempenham as funções situadas em seu
ápice concentram o poder e o conhecimento. À
medida que descemos os degraus da hierarquia (comando sagrado,
em grego) vemos o poder de diluindo e o conhecimento se
transformando em memória repetitiva. Esta é
a ideologia que sustenta as relações de trabalho
numa organização típica da pré-revolução
industrial e que vem persistindo até hoje, como fóssil
vivo. No outro extremo, temos desenhos organizacionais que
expressam e promovem a distribuição de poder
e de conhecimento por todos os componentes organizacionais.
A forma mais típica dessa nova estrutura organizacional
é a Rede de Trabalho, constituída por Células
de Negócios interligadas entre si por contratos de
gestão e articuladas por um núcleo central.
Está clara a relação
entre os modelos organizacionais e o regime de poder na
Organização. Fazendo uma alegoria, podemos
dizer que a estrutura constitui o esqueleto, o conjunto
normativo representa a musculatura e as relações
de trabalho revela o comportamento coletivo isto é,
a cultura organizacional que, num círculo vicioso,
reforça a estrutura e assim por diante.
A Pirâmide Hierárquica é
o esqueleto ideal para criar e manter o autoritarismo combinado
ao servilismo e fazer do controle e da disciplina os valores
preponderantes da cultura organizacional. Por outro lado,
a Rede de Trabalho, é a estrutura ideal à
manifestação da democracia nas relações
de trabalho, estimuladas pelo respeito mútuo, pelo
comprometimento e pela construção coletiva
dos destinos organizacionais.
A Democracia nas Organizações,
apesar do tabu que ainda representa em nosso mundo tão
racionalista e mecanicista, tem sido responsável
pela migração de profissionais, em busca de
melhores condições e oportunidades de desenvolvimento.
Em recente reportagem, a Revista EXAME, ao tratar do tema
de capa "Como Atrair Talentos", revela os casos
de Alexandre Pombo e de Eduardo Cocozza: o primeiro responsabiliza
"a estrutura monolítica da IBM que não
permitia que eu exercesse a minha criatividade. Basicamente
eu tinha que cumprir ordens e isso me frustrava"; o
segundo, que mudou de empresa sem ganhar qualquer aumento
salarial com isso, também condena a "estrutura
rígida. Eu estava lá fazia seis anos e não
via chance de mudanças a não ser a longo prazo."
Imaginem a situação de
inúmeros outros empregados e servidores públicos
que, ao se verem despreparados para um novo emprego, têm
que se sujeitar ao ambiente autoritário, castrador
da cidadania, que ainda caracteriza a grande maioria das
Empresas e das Organizações Públicas
de nosso país.