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ARTIGO 11 - PARADIGMAS FILOSÓFICOS E DESENVOLVIMENTO HUMANO

Ruy de A. Mattos
Psicólogo Organizacional e
Consultor de Empresas

Como sabemos, toda ação humana fundamenta-se em concepções, modelos, percepções, valores, crenças, entre outros fatores. Esse conjunto de fatores, por sua vez, opera em paradigmas, isto é, maneiras pelas quais estabelecemos contato com a nossa realidade objetiva e subjetiva.

A atividade de Desenvolvimento Humano não poderia estar isenta dessas influências paradigmáticas. Precisamos, então, analisar devidamente a questão do como, do por quê e do para que educamos, treinamos e desenvolvemos pessoas. Magoroh Maruyama, um teórico da teoria de Sistemas Informacionais apresenta análise muito ilustrativa da influência que a visão do universo e do homem produz sobre o pensamento filosófico e científico e sobre a prática tecnológica de um modo geral.
Para ele há duas visões ou paradigmas sobre o universo e sobre o homem:

- Visão classificadora

- Visão Relacional

O PARADIGMA CLASSIFICADOR

Este paradigma que remonta a Parmênides e foi consolidado por Platão, concebe o Universo como formado por substâncias materiais e espirituais, mantendo, entre as diversas categorias de substâncias, uma relação hierárquica fixa.
Assim, segundo a Visão Classificadora as substâncias possuem as seguintes características básicas:

· Persistem no tempo
· Obedecem à "lei da identidade e da mútua exclusão" e são ordenadas da seguinte maneira:

1. são classificáveis em categorias mutuamente exclusivas;

2. as categorias podem ser divididas em subcategorias ou combinadas em super categorias;

3. há uma categoria mais ampla, que inclui todas as outras categorias e é chamado de Universo;

4. as relações entre as categorias são estáticas.

A influência desta visão sobre nossas percepções e concepções acerca do ser humano é marcante. Quando falamos em "Indivíduo" formamos imediatamente, uma imagem de alguém isolado, possuidor de propriedades e características que o faz diferente dos outros. A relação interpessoal emerge como algo secundário determinado pelas idiossincrasias de cada indivíduo. Quais as repercussões dessa concepção sobre a nossa atividade de educação, treina mento e desenvolvimento?
Algumas delas são identificáveis através das seguintes ações:

· separamos os alunos em categorias homogêneas (idade, sexo, experiência anterior, objetivos) com o intuito de facilitar o processo de ensino-aprendizagem;
· separamos os treinando por níveis hierárquicos, categorias funcionais, necessidades pessoais de aperfeiçoamento, de modo a facilitar a condução do treinamento como se o trabalho constituísse algo fragmentado e parcelado;
· aplicamos testes, provas para classificar os níveis de aproveitamento do aluno ou treinando em cada matéria, como se fosse possível registrar, em uma nota ou ponderação a dinâmica da aprendizagem;
· separamos o programa de treinamento em matérias isoladas, como se o conhecimento existisse em compartimentos estanques;
· classificamos os objetivos de aprendizagem em categorias (cognitiva, atitudinal, de habilidades etc.) como se não constituíssem expressões complementares de um mesmo fenômeno;
· isolamos os gerentes de seus subordinados para executar programas de desenvolvimento gerencial, como se isso atingisse adequadamente os objetivos pretendidos;
· separamos a teoria da prática como se não constituíssem duas facetas interdependentes do trabalho e da vida humana;
· separamos trabalho de aprendizagem, como se no trabalho não se processasse a aprendizagem e nesta não se produzisse trabalho;
· separamos diagnóstico, de planejamento, de execução e de avaliação, como se constituíssem coisas independentes. Em decorrência, especializamos pessoas para serem planejadores, outras para serem executores, outras avaliadores, criando, desse modo, uma espécie de fragmentação ou esquizofrenização do trabalho humano.

Além dessas, há inúmeras outras distorções, que têm contribuído para criar mais confusões e dificuldades do que soluções para o processo de ensino-aprendizagem.

A Visão Classificadora foi, sem dúvida, muito eficaz como suporte para a edificação das ciências naturais, tais como a Física e Química, entre outras, cujos objetos de estudo, por sua relativa estabilidade e simplicidade, permitem o isolamento de variáveis, a reprodução "ad infinitum" de fenômenos sob condições controladas e a previsão de seus dados futuros.

Talvez levados pelo êxito incontestável do método cartesiano, os cientistas sociais e os profissionais que lidam com o comportamento humano tomaram-no de empréstimo, passando a utilizá-lo na abordagem de seus objetos de estudo. Não consideraram (e muitos continuam a não considerar) a diversidade dos fenômenos humanos e sociais que, ao contrário dos fenômenos naturais, caracteriza-se, pelo dinamismo, instabilidade, heterogeneidade, imprevisibilidade e muito maior complexidade. Esta gritante inadequação foi observada por Ross Ashby (1), um renomado teórico de sistemas. Para ele, essas duas qualidades do sistema complexo: heterogeneidade de partes e riqueza de interação entre elas - têm a mesma implicação: as quantidades de informações que fluem, seja do sistema para o observador seja de parte para parte, são muito maiores do que as que fluem quando o cientista um físico ou um químico.


O PARADIGMA RELACIONAL

É patente a necessidade de uma nova abordagem para a análise e compreensão dos fenômenos humanos, dentre os quais o comportamento organizacional. Este novo enfoque deverá, basear-se em parâmetros com os quais não estamos habituados a pensar, devido à nossa estrutura de pensamento, condicionada, ao longo do tempo, pelo paradigma classificador, oriundo das culturas grega e romana.

Esta nova abordagem implica em que aprendamos a perceber e a estudar um fenômeno social em seu dinamismo e complexidade e a aceitar a relatividade de nossas percepções, devido ao fato de sermos, ao mesmo tempo, observadores e partes do fenômeno observado. Encontramos a base filosófica dessa nova maneira de enfocar a realidade no paradigma ou "Visão Relacional", segundo a denominação da Maruyama. Desse modo, segundo ele, "em contraste com a visão classificadora, orientada para a substância, a visão relacional se orienta para o evento(...) Em vez de haver uma preocupação com as prioridades causais ou ontológicas entre os seres, predominam no universo relacional as interações mútuas. As definições não são dadas pelas categorias e subcategorias, mas pelas interações e inter-relações." E continua Maruyama: "no Universo Classificador, a pergunta básica é: "o que é isto?" No Universo Relacional, por outro lado, a questão básica é: "como isto se relaciona com outras coisas?".

"No Universo Relacional, a educação visa a obtenção da sabedoria quanto às relações do universo, e, em particular, quanto às relações humanas. As relações são mútuas e o indivíduo é concebido em termos de suas relações com os outro". Ele conclui afirmando que "seu foco é a causalidade mútua. Interessa-lhe mais a natureza dos laços mútuos entre os elementos do que a natureza dos elementos em si. Nenhum elemento tem prioridade causal sobre os outros, mas constitui um elo indispensável na cadeia de causalidade circular. Seu processo é o crescimento e o desenvolvimento". (2)

A nosso ver, a educação de um modo geral, e o treinamento e desenvolvimento de recursos humanos, em particular, podem construir, com base no Paradigma Relacional, estratégias mais eficazes com vistas à melhoria das condições da vida humana.
Como sabemos o objeto do Treinamento e Desenvolvimento é o comportamento humano expresso no contexto das organizações. Portanto, precisamos compreendê-lo em sua essência, antes de pretender alterá-lo, seja para aperfeiçoá-lo, corrigindo distorções, ou desenvolvê-lo, ampliando possibilidades.

IMPORTANTE

O comportamento humano é um fenômeno social e situacional e não um atributo individual e imanente. A ilusão perceptiva oriunda do condicionamento mental classificador e coisificador nos faz ver o comportamento como algo inerente ao indivíduo, como atributo físico, palpável, a semelhança de sua estatura, peso, cor dos olhos, etc.

Por isso não é estranho que classifiquemos as pessoas em categorias tais como: tímido, agressivo, dominador, corajoso, medroso, neurótico, moralista, decidido, zeloso, entre inúmeros outros adjetivos que se transformaram, na prática, em substantivos dos quais dificilmente alguém consegue livrar-se, depois de rotulado.

- "Meu filho, pau que nasce torto, morre torto", é o provérbio popular mais ouvido, quando alguém sugere que: "fulano, está mudando, não é mais aquele que conhecemos". E o outro retorque, rapidamente: "é, mas no fundo ele continua o mesmo, você vai ver, é só esperar".

Que fatores contribuem para a manutenção dessa nossa maneira de ver as pessoas? E como poderá isso influenciar o modo de conduzirmos a atividade de Treinamento e Desenvolvimento.


SISTEMA COMPORTAMENTO ORGANIZACIONAL

O comportamento organizacional constitui um sistema de relações e influências estabelecidas entre diversos fatores, alguns intrínsecos ao indivíduo, outros relativos ao seu grupo de trabalho; uns à organização como um todo, e, outros, ainda, inerentes à própria sociedade e ambiente onde a organização encontra-se inserida. Desse modo, além dos conhecimentos, atitudes, valores, aptidões, necessidades e habilidades individuais, o comportamento organizacional é expresso através da cultura, relações interpessoais e objetivos do grupo e organização, bem como das circunstâncias e oportunidades sociais e ambientais.

O comportamento organizacional é avaliado quanto à sua eficácia enquanto ação dirigida a determinada expectativa de resultado estabelecida previamente, conforme ilustramos no esquema a seguir:


Numa análise mais detalhada podemos dizer que o comportamento organizacional é determinado por variáveis tais como:

· tecnologia utilizada para a execução do trabalho
· estrutura de poder da organização
· natureza das relações de trabalho
· valores e crenças mantidas pelo grupo ao qual pertence o indivíduo
· relações entre as unidades da organização
· características dos grupos informais
· expectativas que a sociedade possui sobre o desempenho da organização como um todo
· ligações e compromissos pessoais que cada indivíduo mantêm com grupos externos à organização (grupos políticos, financeiros, religiosos, culturais etc.)
· condições do ambiente onde se encontra a organização.

Se o comportamento organizacional constitui um evento ou fenômeno sistêmico, portanto social e circunstancial, precisamos repensar nossas teorias e práticas de treinamento e desenvolvimento. Para início de conversa, a própria denominação "Desenvolvimento de Recursos Humanos" trai a visão classificador que tradicionalmente vem sendo utilizada.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

(1) Ashby, Ross W - Aplicações da Cibernética à Psiquiatria. (Citado por Isaac Epstein em Cobernética e Comunicação. Editora Cultrix (SP), p. 18

(2) Maruyama, Magoroh. - Cibernética e Comunicação - Editora


 

 

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