ARTIGOS


ARTIGO 12 - ESTRATÉGIA: A CONSTRUÇÃO DO FUTURO

Ruy de A. Mattos
Psicólogo Organizacional e
Consultor de Empresas

UM POUCO DE HISTÓRIA

Quando ouvimos falar de "estratégia" vem logo à mente a idéia de militares em combate, reunidos, traçando seus planos para a conquista do território inimigo. De fato, a origem da estratégia foi o campo de batalha grego. Naquela época, os gregos davam tanta importância a esta questão que designavam os comandantes de seus exércitos de "estrategos", aqueles responsáveis por planejar a guerra e vencer seus inimigos. Naquela época, também, a guerra era a continuação da política, portanto traçar estratégia, apesar de uma tarefa militar, influía enormemente na vida do cidadão comum, que era convocado a dar sua contribuição, em sangue ou trabalho.

Ao longo dos séculos, a estratégia foi saindo do campo militar e conquistando o espaço das relações comerciais. Neste sentido, cada país, cidade ou organização comercial passou a dedicar parte de seus esforços, recursos e tempo para traçar seus planos de conquista de novos mercados. Nosso Brasil, certamente, foi o resultado de estratégias traçadas na corte portuguesa e em empresas holandesas e britânicas do século XV.

Continuando esta viagem histórica podemos constatar que, hoje, o conceito de Estratégia ampliou-se mais ainda, agregando, além de sua preocupação econômica e mercantil, os objetivos sociais e culturais em seu âmbito de atuação. Desse modo, uma cidade traça suas estratégias para enfrentar os desafios da educação, da saúde, da segurança de sua população. Uma Organização da Sociedade Civil traça suas estratégias para tornar suas ações de voluntariado mais eficazes, mais abrangentes, mais ágeis etc. Uma igreja define sua estratégia de como manter e conquistar os corações e mentes de seus fiéis, expandindo a influência de seus credos. Uma família define sua estratégia de como desenvolver-se neste cenário de elevado desemprego, serviços públicos precários, insegurança de suas crianças e jovens.

Todas estas entidades estão exercitando atitudes e comportamentos proativos, deixando de lado a tendência à atitude passiva de tudo esperar de Deus ou do Governo e assumindo a construção de seus próprios futuros. Elas estão fazendo ESTRATÉGIAS, por isso terão muito mais possibilidades de êxito na realização de seus desejos e na satisfação de suas necessidades.


ESTRATÉGIA E VISÃO DO FUTURO


Estratégia é a ciência e a arte de construir o presente a partir do futuro desejado.
Isto mesmo. O estrategista se nutre do futuro, ao contrário do burocrata, de comportamento passivo ou reativo, que se alimenta de passado, tentando repeti-lo no presente para não se surpreender com as mudanças. Ser proativo, portanto, é a característica essencial do estrategista.

A proatividade se torna algo concreto, capaz de transformar a própria realidade, quando utilizamos uma técnica de planejamento conhecida como visualização de cenários futuros, em outras palavras, Visão de Futuro. Diversas pesquisas em psicologia organizacional têm demonstrado a força realizadora que uma Visão de Futuro desperta na pessoa, no grupo, na empresa, na comunidade.

Ela cria uma espécie de imã mental que nos atrai em sua direção, uma força gravitacional que prende nossos pensamentos, nossas emoções, nossas ações, nossos recursos, de modo a nos fazer realizar aquele objetivo almejado. Assim, quando criamos uma forte e clara Visão de nosso Futuro, estamos assumindo a autoria de nosso destino, modelando nosso amanhã, de modo que toda nossa vida passa a ter um significado novo, motivador de nossas ações, orientador da alocação de nosso tempo e de nossos recursos. O que não estiver sintonizado à Visão do Futuro nós deixamos em segundo plano, pois não o consideramos prioritário em nossa escala de valores.

Esta força mental pode ser orientadora de nossa vida pessoal ou profissional constituindo o norte que orientará nosso Plano de Vida.

Quando expandimos esta Visão do Futuro para uma empresa ou uma comunidade, um novo fator é agregado, pois já não basta estarmos motivados pela nossa Visão pessoal. É preciso que estejamos comprometidos em fazer com que a Visão deixe de ser só minha e passe a ser de todos, isto é, que seja compartilhada e convergente, inspiradora de toda a coletividade. Neste caso, estaremos diante de uma Visão de Futuro Compartilhada e Convergente.

É a Visão de Futuro Compartilhada e Convergente que torna possível o sonho de construir uma nova empresa, uma nova cidade, uma nova vida coletiva. Estamos no campo da cidadania e é neste nível que um Plano de Ação alcança seus resultados mais concretos, deixando de ser o objetivo de um ou de alguns, para ser o grande objetivo de muitos.

Outra constatação da psicologia e da sociologia é que a Visão de Futuro Compartilhada e Convergente é a expressão mais legítima e forte da liderança. Lideranças sem Visão de Futuro Compartilhada são cegas e preocupadas tão somente com questões pessoais. Disso resultada a grave distorção que vemos no comportamento de muitos de nossos políticos cuja visão é o próprio umbigo.

Por outro lado, a Visão de Futuro Compartilhada e Convergente, quando construída por lideranças comprometidas com a melhoria auto-sustentável da empresa ou da comunidade, é capaz de operar mudanças profundas nas condições sociais, econômicas e políticas que irão criar novos patamares de desenvolvimento.

ESTRATÉGIA E TERRITÓRIO

O território foi, historicamente, o primeiro objetivo dos estrategistas. Conquistar campos de caça, terrenos agricultáveis, portos e vias marítimas navegáveis, vilas e cidades bem localizadas comercialmente, estes foram (e ainda são) os objetivos de muitas guerras, não é verdade?

O tempo foi passando, a economia se modernizando e o sentido literal da palavra território, foi deixando de ser algo físico, para transformar-se cada vez mais em algo abstrato, até chegar ao que conhecemos hoje como espaço virtual, proporcionado pela grande rede internacional de computadores (internet). Nesse sentido, a questão estratégica deixou de ser conquistar terras e passou a ser conquistar e manter "espaços" comerciais, isto é, "mercados" para a venda de bens e serviços, inaugurando a globalização das atividades econômicas. Sabemos que este processo de globalização iniciou-se com os fenícios e foi aprimorado pelos gregos que construíram um mundo pan-helênico que abrangia todo o mediterrâneo e a Ásia Menor. Desde estes tempos imemoriais a estratégia de expansão era essencialmente ampliar o mercado, uma lógica que se mantém até hoje, tendo havido apenas a mudança dos impérios comerciais, sempre respaldados por sua força militar e mantidos por sua cultura de dominação. Os Estados Unidos são, hoje, o que já foram os gregos, os romanos, os espanhóis, os portugueses, os ingleses, etc.

Neste limiar do século XXI a conquista de territórios comerciais e culturais é feita num espaço virtual que ignora as fronteiras nacionais, criando novas referências de limites. Este novo território cobiçado pelos estrategistas é a mente das pessoas, transformadas em consumidores não só de coisas, mas principalmente de informações, de símbolos, de experiências, de ideologias.

Para traçarmos a estratégia de conquista, manutenção ou desenvolvimento de um determinado "território" precisamos lidar com o ambiente que lhe é característico. Por sua vez, para conhecer este ambiente, precisamos aprender a decodifica-lo em seus componentes essenciais, pois seria impossível conhecermos todas as nuances e peculiaridades de um ambiente. É aqui que entra a técnica de elaboração de Cenários, que nos fornecerá os comportamentos principais de um ambiente, onde pretendemos atuar no futuro.


DELINEANDO CENÁRIOS

O ambiente constitui um sistema interativo de recursos, informações, energia e tempo. Manifesta-se segundo determinadas condições e sofre interferência de variáveis de natureza diversa (econômica, política, ecológica, social etc.) Do ponto de vista sistêmico, há sub-conjuntos que se configuram como fornecedores e outros como clientes de insumos, criando uma teia relacional de interdependência.
O ambiente pode ser compreendido e alterado por meio da modelagem de cenários, método que evidencia os problemas, as oportunidades, as vocações, as tendências e as ameaças que a empresa, a instituição ou a comunidade precisa considerar em seu planejamento estratégico para obter melhores resultados em seu desempenho futuro.

Em relação ao tempo, podemos modelar o cenário em cenário presente e cenário futuro. No primeiro caso, temos as circunstâncias e variáveis existentes efetivamente, tais como os problemas e as oportunidades. Por outro lado, ao modelarmos o cenário futuro evidenciamos o que poderá ocorrer, tais como as tendências, as ameaças, os riscos e os benefícios que os estrategistas precisam considerar ao construírem o Plano de Ação.


Elementos do Cenário Presente

O Problema

"Constitui a representação subjetiva de algum fato ou situação que se interpõe entre o sujeito e o seu objetivo, dificultando seu alcance. Não possui, portanto, existência objetiva, independente de um determinado sujeito. Desse modo, a situação "x" poderá ser considerada problema para o sujeito "A", ao mesmo tempo em que o sujeito "B" a julga uma oportunidade." 2

Você já deve ter conhecido pessoas e coletividades que "vivem criando problemas" e quando diante de uma solução fazem de tudo para não considera-la e não aplica-la, como se tivessem medo de resolver seus problemas e de não terem mais do que se queixar ou de não mais poderem culpar alguém por suas dificuldades, até mesmo por sua infelicidade. Assim, precisamos saber separar o que é problema real, de problema psicológico, fictício, mero sintoma de uma incapacidade, de uma insegurança ou de baixa auto-estima diante de circunstâncias difíceis.

Saber diferenciar problemas e sintomas é uma competência que precisa ser treinada por todos nós.

A Oportunidade

É o fenômeno que indica a possibilidade de ganho de uma decisão, estimulando sua implementação pela perspectiva de sucesso. O curioso é que, muitas vezes, o ambiente nos proporciona condições favoráveis ao nosso desempenho e às nossas decisões e nós, por miopia ou descuido, não percebemos. A oportunidade pode transformar-se em problema quando nosso concorrente percebe-a e antecipa-se a nós, ao utilizá-la. As oportunidades podem ser traduzidas por demandas potenciais de nossos clientes, por recursos ainda não explorados, por talentos não revelados. Para percebe-las precisamos estar atentos a sinais, muitas vezes imperceptíveis, à primeira vista. Para tanto precisamos manter um acompanhamento sistemático de nosso mercado, de nossos clientes, de nossos concorrentes, enfim, do ambiente considerado relevante aos nossos propósitos.
Você consegue listar as principais oportunidades que sua empresa, que sua cidade poderiam melhor aproveitar, trazendo benefícios para todos?

Elementos do Cenário Futuro

A Tendência

É um fenômeno do ambiente que se manifesta no tempo e indica a maior ou menor possibilidade de ocorrência de determinados fatos no futuro. Pode ser expresso por meio de séries históricas (p. ex.: índices de inflação, de produtividade, de emprego etc.) Há muitos problemas recorrentes, que se apresentam de forma cíclica, sazonal, sempre ocorrendo nos mesmos períodos do ano. Para melhor resolve-los precisamos criar programas de acompanhamento de modo que nos indiquem as mudanças com as quais iremos lidar ao longo do tempo. Criamos os "indicadores" quantitativos ou qualitativos que ajudam a melhor decifrar o cenário futuro de nossa empresa ou comunidade. Saber acompanhar as tendências é um modo de sermos efetivamente proativos, antecipando-nos aos problemas e assim enfrentando-os ainda em estágios mais simples e de fácil solução. O mesmo funciona para percebermos as oportunidades antes que outros o façam, tornando nossas ações mais ágeis e econômicas.


A Ameaça

É um fenômeno ou condição externa que indica a possibilidade de perda ou de desvio dos resultados de uma decisão. Em outras palavras, podemos dizer que a ameaça é um problema potencial. Ao descobri-la e acompanha-la com antecedência o decisor poderá prevenir-se, evitando a ocorrência do problema, reduzindo-lhe a gravidade ou desviando-se em tempo da situação adversa que se desenha à sua frente.

Ah, se o comandante do Titanic tivesse seguido esta orientação diante da ameaça de Iceberg naquela área em que estavam navegando...
Você percebe as ameaças que se desenham em relação ao futuro de sua empresa, de sua comunidade?

O Risco e o Benefício

São fenômenos intrínsecos às decisões. Referem-se à percepção do decisor sobre as possibilidades de sucesso ou de fracasso de suas decisões. Ao ignorar os riscos de uma decisão, podemos comprometer o futuro de nosso empreendimento, assim como, ao temê-lo excessivamente, podemos deixar de auferir benefícios que somente a coragem de "correr riscos" poderá nos proporcionar.


ESTRATÉGIA: COMPETIÇÃO E COOPERAÇÃO

Sempre se associou o exercício de traçar estratégias ao comportamento competitivo, até mesmo destrutivo do estrategista. Hoje em dia, diante da complexidade dos negócios e da vida em comunidade, esta visão pode ser considerada simplista e ultrapassada. As empresas, sejam pequenas, médias ou grandes, estão estabelecendo parcerias e alianças entre si para enfrentar novos competidores em escala regional ou mundial. Desse modo, podemos dizer que é desejável que sejam traçadas estratégias que combinem adequadamente a competição com a cooperação. A construção de redes, clusters, alianças, parcerias, entre outras formas de associativismo bem demonstram o que estamos dizendo. Mais adiante iremos aprofundar nesta questão, que vem representando o sucesso da Itália, da Dinamarca, do Japão e também do Brasil, como poderemos ver por uma série de exemplos bem sucedidos de associação empresarial com vistas na exportação, na defesa de interesses comuns, no combate a ameaças sistêmicas.



Ainda não disponível