ARTIGOS


ARTIGO 13 - LIDERANÇA, UM FENÔMENO RELACIONAL

Ruy de A. Mattos
Psicólogo Organizacional e
Consultor de Empresas

1. O Mito do Líder

É comum encontrarmos no meio do povo, no meio empresarial e na literatura, o conceito de líder como aquela pessoa que conduz os demais em direção àquilo que ela acredita, independentemente da situação existente e das características de seus seguidores. O líder seria aquela figura mítica, mágica, situada acima dos demais humanos, dotada de um tipo de um poder extraordinário. Este mito do líder super-homem, além de machista (pois é evitada a expressão super-mulher) decorre de séculos de influência que as religiões exerceram sobre as coisas mundanas. Segundo este mito, existiria uma espécie de poder doado por Deus aos líderes religiosos, aos imperadores, reis e outros nobres, por meio do qual poderiam dirigir e controlar as massas de fiéis, de súditos e, mais tarde, de operários, sem contestação. Este atributo ficou conhecido como "carisma", o poder divino do líder.

Com o avanço da ciência, principalmente da sociologia, da psicologia, da administração, da ciência política, entre outras, inúmeras pesquisas demonstraram que esta idéia de líder inato, de líder absoluto, era apenas uma fábula. Os pesquisadores não conseguiram encontrar os supostos atributos psicológicos que distinguiriam um líder de um não-líder, ficando a conclusão de que este fenômeno da liderança transcende à pessoa do líder e que para entende-lo, precisamos levar em consideração a situação onde este ato de liderança é exercido.

Neste sentido, a liderança resulta da relação assimétrica de poder ou, mais concretamente, da influência que certa pessoa exerce sobre outras, enquanto estas "outras" aceitam segui-la, legitimando-a naquela situação específica. É por isso que pessoas consideradas "grandes líderes" em suas empresas sentem-se frustradas por terem que se submeter a outras autoridades, quando em ambientes distintos, por vezes até mesmo em sua própria casa, na relação com seus filhos adolescentes ou com sua mulher.

A aprendizagem de novas atitudes, crenças e habilidades de liderança precisa ocorrer na situação relacional e concreta do trabalho, quer seja no escritório, na fábrica, na loja, ou em qualquer outro ambiente social. Neste sentido o gestor, no desempenho de seu papel de condutor, educador, orientador, deve construir sua legitimidade na interação com seus parceiros e colaboradores, enquanto agentes constituintes de uma equipe de trabalho, de uma instituição ou de uma comunidade.

Aprendemos a ser líderes e liderados, ao mesmo tempo, ao construirmos relações democráticas de influência mútua entre nós, no desempenho de nossa cidadania. Tal cidadania é exercitada na pequena equipe de trabalho, na organização e na comunidade. Sua história é construída nas relações e nos jogos de poder que permeiam o processo de produzir e de viver coletivamente. Nesse sentido, as mudanças nos estilos e padrões de liderança são interativas e interdependentes, isto é, operam-se tanto no "líder" quanto nos "liderados" concomitantemente.

2. Estabelecendo um novo referencial para a liderança

Pelo fato da liderança ser um fenômeno relacional, não um atributo ou comportamento individual, sua existência decorre da interação contínua e dinâmica de quem desempenha o papel de líder, dos liderados, do grupo, do superior, da empresa e do ambiente externo. Não existem dois tipos de liderança idênticos, devido à complexidade dessa interação sistêmica. Segundo Tannembaum, "muitas vezes o subordinado influencia o superior (...). Em qualquer relação os papéis de influenciador e de influenciado passam de uma pessoa para outra. Conceptualmente, o processo ou função de influência encontra-se presente, mesmo que variem os indivíduos específicos que desempenham os papéis de influenciador e de influenciado. Assim, o papel de líder raramente é desempenhado continuamente por um indivíduo, mesmo sob condições específicas, para com as mesmas pessoas. Ao invés, é um papel assumido, numa ocasião ou noutra para cada indivíduo".(Tannembaum, Robert; Weschler, lrving R. e Massarik, Fred. Em Liderança e Empresa. Ed. Atlas S/A, São Paulo, 1972. p. 43.)

Thomas Gordon reforça este ponto de vista, ao declarar que "a liderança é um conjunto de funções que são propriedades do grupo. Idealmente, são distribuídas dentro deste de acordo com as aptidões dos membros. Assim, o líder formal nem sempre lidera e os subordinados nem sempre são liderados. O grupo tende a elevar ao máximo o seu ajustamento quando cada membro tem liberdade de assumir algumas das funções de liderança. Não são pessoas a serem "lideradas" por alguém que tenha qualidades "superiores".(Citado por Argyris, Chris. Personalidade e Empresa. Ed. Renés, Rio de Janeiro,1957 p.206)

O fato de encontrar-se, por meio de questionários e testes psicológicos, certas características individuais comuns a diversos indivíduos que desempenham o papel de líderes, não significa que tais características existam de "per si", independentemente, mas como "mecanismos" a que são "ativados" em circunstâncias específicas. Afora isso, permanecem apenas como predisposições, em estado potencial.

A questão crucial ocorre quando, a partir de conclusões desse estudo, confundem-se o "mecanismo" e o fenômeno da liderança e a seguir constroem-se programas para gerar líderes ideais, deixando-se de considerar os demais componentes do sistema de relações que determinam a liderança.

Nessas pesquisas, que tentam isolar as características de um líder ideal, ou de um estilo de liderança ideal, com base no estudo parcial do sistema de liderança, ocorre algo semelhante à tentativa de compreender as propriedades da água, estudando-se isoladamente o oxigênio ou o hidrogênio do sistema H2O. Melhor dizendo, é como querer compreender as propriedades do calor de um corpo isolando-o, como algo independente.

Essa orientação metodológica, de isolar algo para compreender o todo, deu origem a diversas teorias, conforme o componente selecionado:
COMPONENTE
TEORIA

Indivíduo no papel de líder
Teoria do Grande Homem

Tecnologia
Administração Científica

Subordinado
Relações Humanas

Colaborador
Dinâmica de Grupo

Superior
Estilos Gerenciais

Organização
Teoria da Organização

Fig. 1 - Tendências dos estudos sobre liderança
Stodgill apresenta uma abordagem dissidente, quando afirma que "liderança não é uma questão de status passivo ou de mera posse de determinada combinação de características. Parece, mais ser uma relação operacional entre os membros do grupo, na qual o líder adquire status por meio de participação ativa e da demonstração de sua capacidade de levar a bom termo trabalhos que exijam cooperação". (Citado por Knickercocker, Irving. Liderança: Um conceito e algumas implicações, publ. no Compêndio "O Comportamento Humano na Empresa". Ed. FGV, Rio de Janeiro, 1975. p. 98)
De modo mais consistente, a abordagem situacional rompeu esse vício metodológico e abriu uma nova frente na pesquisa de liderança. Entretanto, sua maior influência ainda ocorre no campo teórico, pois, na prática, seus aplicadores voltam a agir sobre apenas um dos componentes do sistema de liderança, o gestor. Em outras palavras, a teoria, na prática, ficou sendo outra; não por deficiência da teoria, mas por sua inadequada aplicação.

Ao nosso ver, um programa de desenvolvimento da liderança apresentará seu grau máximo de eficácia quando abordar o sistema gerencial como um todo, em seu pleno funcionamento. Assim, não faz sentido um programa de desenvolvimento de líderes, enquanto indivíduos isolados daqueles a quem irão liderar.

Albert Nickerson corrobora esse ponto de vista, quando declara que "o comportamento do indivíduo está de tal modo ligado à empresa (formal e informal) que o desenvolvimento de executivos deve focalizar-se sobre o desenvolvimento da personalidade humana num contexto orgânico particular".(Citado por Argyris, Chris. Personalidade e Empresa. Ed. Renés, Rio de Janeiro,1957)
Por sua vez, Abner Cohen reforça essa opinião, ao declarar que a liderança é uma função do grupo e sua análise só é possível no contexto do próprio grupo. (...) é a situação estrutural do grupo que determina o tipo de símbolo mais eficiente e, consequentemente, que tipo de líder se faz mais necessário. O carisma é em grande parte uma função grupal, não um traço individual".(Cohen, Abner. O Homem Bidimensional. Ed. Zahar, Rio de Janeiro, 1978. p. 103)

Também Argyris compartilha desse ponto de vista, quando afirma que a dificuldade para se alterar a estrutura formal ou um estilo de liderança autocrático é dificultado pelos próprios empregados que "já se adaptaram a essas atividades, criando atividades informais que influenciam, por sua vez, seu comportamento, impedindo qualquer modificação num sentido construtivo".(Argyris, Chris. Personalidade e Empresa. Ed. Renés, Rio de Janeiro,1957p.229)

Enfatizando mais ainda a necessidade de uma abordagem sistêmica e relacional da liderança, citamos as conclusões de Bradford, que, resumindo dez anos de pesquisa em treinamento, afirma que "o treinamento eficaz inclui entendimento dos processos de solução de problemas e tomada de decisões pelo grupo, entendimento das forças dentro do grupo que coagem ao comportamento, entendimento das condições que facilitam o crescimento do grupo, entendimento das necessidades dos participantes individuais, e sua relação singular com o grupo". (Argyris, Chris. Personalidade e Empresa. Ed. Renés, Rio de Janeiro,1957 p. 230)

Reforçando essa orientação, F. J. Roethlisberger afirma que "em vez de buscar técnicas pelas quais o praticante A possa influenciar o comportamento de B, deveríamos procurar primeiro ver como, numa situação concreta, o comportamento de A influi no comportamento de B e vice-versa, e como A leva em conta tal aspecto".

Com isso, estaremos analisando o processo de trabalho e as relações entre os diversos componentes do sistema, no próprio ambiente, evitando a construção de suposições, muito interessantes, às vezes; porém pouco úteis, na prática. Somente desse modo poderemos compreender as peculiaridades de um modelo de liderança e promover sua mudança ou aperfeiçoamento, de modo concreto, seguro e estável e com um pequeno grau de resistência, pois o programa estará envolvendo todo o sistema, o que facilitará sua adoção e manutenção.

Outra observação de F. J. Roethlisberger, que reforça essa metodologia, diz que examinando nosso comportamento e nossas relações com os outros em situações específicas, poderíamos aprender a ver os determinantes e as conseqüências do entendimento e desentendimento em nossas atividades cotidianas e a parte que nelas desempenhamos. Por meio de dessa abordagem, poderíamos aperfeiçoar nossa prática".

Essa necessidade, salientada por F. J. Roethlisberger, de conhecermos os determinantes e as conseqüências de nossas condutas, é de vital mportância. É apenas de posse da compreensão destas variáveis que teremos condições de facilitar a alteração de um estilo gerencial ou de um modelo de comportamento. Sem conhecermos os fatores que mantêm esse estilo, aquela tarefa fica no campo do ensaio-e-erro, e, até atingirmos o alvo, o tempo e os recursos despendidos talvez nem compensem o esforço.

3. Superando as dificuldades para desenvolver o sistema relacional de liderança

Liderança não é uma finalidade do sistema organizacional, mas um "fenômeno" resultante de seu funcionamento em busca de certos objetivos. Poderia ser conceituada como a resultante da função de "pilotagem" do sistema.

Consideramos "sistema relacional de liderança" a rede de relações formada pela interação dos seguintes elementos: gestor, seus subordinados, seus colaboradores, seu superior, a organização com suas próprias características (tecnologia, cultura, filosofias etc.).

Esse sistema encontra-se em íntima relação com seu ambiente externo (supersistema) recebendo influências ("input") deste por meio de cada um de seus componentes já citados.

Quando treinamos um gestor isolado de seu sistema de liderança, prometendo-lhe um aumento de eficácia em seu estilo ou a aquisição de um estilo mais eficaz, estamos fazendo uma abordagem simplista e unidimensional da liderança, como se esta fosse um atributo do gestor; como se fosse possível existir um líder sem liderados e demais componentes da liderança. Percebem a intrusão de um conceito muito antigo da liderança, tão combatido pelos modernos autores?

O que ocorre quando o gestor já treinado (com uma bagagem nova de conhecimentos e de exemplos ideais de conduta) reassume sua posição no sistema de liderança?

Em resposta a esta indagação Fleishman, Mahler e Monroe declaram que os programas atuais não são bem sucedidos, quando pretendem levar os indivíduos a modificar suas atitudes, seu comportamento e suas filosofias de liderança, quando seus subordinados percebem qualquer diferença (em seu antigo estilo comportamental).

Por sua vez, Likert, Gordon e Richard "confirmam a conclusão de que empregados e administradores podem resistir à liderança centralizada no empregado (mudança de estilo gerencial) devido ao clima de relações humanas existente" (estado de interação entre os componentes do sistema).(Argyris, Chris. Personalidade e Empresa. Ed. Renés, Rio de Janeiro,1957 p. 221)

Argyris cita o caso de Richard que, "quando resolveu tornar-se centralizado nos empregados, ou mais colaborador, encontrou a resistência de seus capatazes. Algumas das maiores resistências a Richard vinham dos membros de sua própria alta administração, que considerava a idéia como louca e insensata". (Argyris, Chris. Personalidade e Empresa. Ed. Renés, Rio de Janeiro,1957 p. 222)

Há, portanto, inúmeras observações e conclusões experimentais que confirmam a ocorrência do fenômeno de resistência à mudança no sistema de liderança, quando se atua apenas sobre o gestor, deixando-se de lado os outros componentes do sistema.

Assim, muitos programas de desenvolvimento de líderes ainda se baseiam no enfoque semelhante ao conceito antigo da doença mental em que a conduta perturbada era vista como resultante de uma "enfermidade" localizada na mente do indivíduo, não uma reação adaptada a uma determinada situação atual ou passada.

Corroborando esse princípio, pesquisas efetuadas por Beavin, Jackson e Watzlawick verificaram que, "quando um paciente melhorava, suas famílias sofriam repercussões drásticas (depressões, episódios psicossomáticos, etc.) e postularam a partir deste fato, que a enfermidade do paciente era, de algum modo, necessária para que o grupo familiar conservasse seu delicado equilíbrio". (Watzlavick, Paul; Beavin, Janet H. e Jackson, Don D. In Pragmática da Comunicação Humana. Ed. Cultrix, São Paulo, 1967)

Não é extremismo de nossa parte dizer que é uma ingenuidade (na melhor das hipóteses) tentar desenvolver isoladamente características pessoais de um gestor, visando a torná-lo mais eficaz como líder. A própria denominação de "gestor eficaz" é, no máximo, um recurso didático utilizado para facilitar a compreensão da liderança. Trata-se a nosso ver de uma abstração, recurso muito usado pelos teóricos, mas que está sendo utilizado na prática, pelos técnicos. E quando isso ocorre, constitui um equívoco às vezes prejudicial para os clientes que "consomem o produto" (não é muito difícil encontrarmos gestores frustrados e desiludidos, após a tentativa infrutífera de mudar um modelo de liderança já estabilizado em seu sistema - divisão, departamento, empresa, comunidade).

Por outro lado, há programas (do tipo seminário de fim-de-semana) que estabelecem um estado de euforia em seu participante. Isso pode ser positivo, porém muitas vezes o resultado final do treinamento vai só até este ponto (mudança em nível de reação) ou um pouco mais além (mudança em nível de conhecimentos), não ultrapassando, contudo, a própria resistência do sistema de hábitos do participante, para atingir o nível de mudança de seu comportamento. Esse gestor volta à sua empresa "falando maravilhas" do programa do qual participou, porém não é "tolo" de tentar mudar seu comportamento gerencial. Não dá o primeiro passo, pois sabe que enfrentará uma reação em sentido contrário e de igual intensidade por parte dos outros componentes do sistema relacional ao qual pertence e que não entendem o motivo de tanta euforia. O resultado final será semelhante aquele que observamos quando alguém acaba de assistir a uma peça de teatro ou de participar de uma festa muito gostosa. Fica apenas uma feliz recordação.

Esta reação dos outros componentes do sistema de liderança, não atingidos pelo programa de desenvolvimento gerencial, reflete o princípio da integração dos subsistemas e aciona a função de manutenção do "estado firme" ou da estabilidade do sistema de liderança.

É imprescindível levar em conta este fenômeno de "rejeição do corpo estranho" que ocorre em conseqüência da metodologia utilizada por programas de desenvolvimento gerencial tradicionais. Para isso, é essencial não apenas compreendermos, mas utilizarmos, na prática, o conhecimento das propriedades dos sistemas relacionais, levando-se em conta que a liderança é um destes fenômenos relacionais e não um atributo mágico, inato, recebido por alguém para comandar os outros, desprovidos deste pretenso "carisma" divino.


 

Ainda não disponível