ARTIGO 15 - REFLEXÕES
SOBRE A CIDADANIA
Ruy de A. Mattos
Psicólogo Organizacional e
Consultor de Empresas
I. INDIVÍDUO, PESSOA, CIDADÃO.
Todos somos indivíduos, a maioria
pessoas e poucos cidadãos.
Não se assustem. Vamos diferenciar
estes conceitos, que em nossas conversas misturamos e confundimos.
E conceitos confusos tornam nossa visão da realidade
também confusa.
O termo indivíduo vem do latim "indivisum",
que quer dizer indivisível, algo inteiro em si mesmo.
Ora, deste modo somos similares a diversos outros seres,
animais ou vegetais, considerados enquanto unidades. As
árvores que compõem uma floresta, os bois
que fazem parte de uma manada, os torcedores aglomerados
num estádio de futebol vibrando por seu time, são
todos indivíduos, isto é, unidades de um conjunto
maior.
Nascemos indivíduos e aprendemos a
ser pessoas. Portanto, nem todos os indivíduos tornam-se
pessoas. O conceito de pessoa vem do grego "persona",
uma máscara usada pelos atores do teatro grego para
realçar os sentimentos e emoções de
cada cena. Eles a colocavam em frente ao próprio
rosto e falavam através dela, representando, portanto
os "personagens" do drama. A psicologia, a partir
deste termo, cunhou o conceito de "personalidade",
isto é, o conjunto de comportamentos, atitudes, sentimentos,
pensamentos que assumimos em nossas relações
sociais, ao desempenharmos os mais diversos papéis
na família, na comunidade. Ser pessoa significa assumir
papéis sociais, que são aprendidos desde nossa
infância até a nossa morte. Portanto ninguém
é pessoa ao nascer.
A cidadania nasce quando saímos do
casulo de nosso "personalismo" e assumimos conscientemente
a construção de algo maior, o ser humano comunitário,
que se manifesta como a cidade ou a pólis, onde vivemos
e pela qual somos responsáveis. Neste sentido, os
termos cidadão (de cidade) e político (de
pólis) são sinônimos. Referem-se aos
seres humanos que, além de serem indivíduos
e pessoas, passam a cuidar e a construir a comunidade da
qual são partes integrantes.
A liderança política nasce do desempenho desta
responsabilidade social. A legitimidade do líder
cidadão, ou líder político, resulta
da aceitação de sua influência por parte
daqueles que o seguem, numa relação dinâmica
onde líderes e liderados tomam parte de uma missão
maior que é o desenvolvimento auto-sustentado de
sua comunidade, seja seu bairro, sua cidade, seu município,
seu estado ou sua nação.
II. O "NÓS" E A CIDADANIA
Estarmos juntos é fundamental para
construirmos o "nós", que é a base
da coletividade. Este é o primeiro estágio
da construção social, responsável pelo
sentimento de "grupalidade", de acolhida e proteção
social, resultante da fusão do "eu" no
todo indiferenciado do "nós". É
o que sente alguém, em seu anonimato, numa torcida,
em que apenas usufrui o fato de ser um entre muitos semelhantes.
Você acha que as pessoas, pelo fato de estarem em
coletividade são, naturalmente, cidadãs? Certamente
não. São pessoas que desfrutam de benefícios
por pertencerem a uma coletividade, onde conseguem trabalho,
alimentação, moradia, segurança, educação
e diversos outros serviços públicos.
Precisamos diferenciar com maior clareza
o fato de estarmos em coletividade, (simplesmente morarmos
ou trabalharmos nesta coletividade), do sentimento de sermos
parte da comunidade. No primeiro caso, somos semelhantes
a um hóspede de Hotel, onde passamos um certo tempo
desfrutando (ou sofrendo) naquele lugar, um lugar "estrangeiro",
isto é, estranho para nós, que por mais que
sejamos bem tratados, nunca será nosso. Não
nos sentimos enraizados naquela coletividade, nem comprometidos
com o seu destino, com seu êxito ou fracasso.
A cidadania certamente pressupõe a
existência do "nós" da coletividade,
mas não se confunde com ele. Cria uma outra espécie
de "nós", ao acrescentar os ingredientes
da participação, do comprometimento e da parceria,
transformando qualitativamente nosso estar em coletividade
em ser comunidade, que resulta do compartilhamento sinérgico
de recursos, pensamentos, valores, sentimentos, símbolos
e ações humanas, fazendo emergir um novo valor
na vida social - o de ser político ou ser cidadão.
Nesse sentido, podemos dizer que a comunidade é a
expressão política da coletividade. Seguindo
este raciocínio, enquanto na coletividade temos habitantes,
contribuintes e consumidores, na comunidade temos cidadãos.
A cidadania, portanto, é produto de
nosso comprometimento social e de nossa ação
consciente e transformadora da realidade em que vivemos.
Neste novo estágio gregário nos sentimos incomodados,
agredidos, frustrados, quando alguma coisa de ruim acontece
com algum de nós ou com o "nós",
enquanto entidade única, seja nossa família,
nosso bairro, nossa empresa, nossa cidade, nosso país.
Do mesmo modo, quando nossa comunidade melhora em relação
a algum indicador social ou econômico todos nos sentimos
alegres, intimamente realizados, por estarmos identificados
com este Todo comum. Esta identificação com
a comunidade só ocorre quando somos cidadãos,
participando, de fato, no processo de desenvolvimento auto-sustentável
de nossa comunidade, seja na solução ou na
prevenção de problemas, seja na busca de novas
oportunidades de melhoria para todos.
A cidadania forma o sentimento de comunidade
que, por sua vez, se alimenta da cidadania, criando num
círculo virtuoso de participação e
comprometimento social.
Com esta equação podemos criar a Nova Organização
e a Nova Cidade, resultantes da prática da democracia,
vivida em nosso dia-a-dia, em todas as relações
humanas da qual fazemos parte.
Na Nova Cidade, as relações
entre as três instâncias de nossa vida social:
a Sociedade, o Estado e o Mercado são revistas, no
sentido da plena realização humana em comunidade.
A Sociedade deixa de ser um conjunto polimorfo de indivíduos
e pessoas, sofrendo e reclamando a insatisfação
de seus interesses e necessidades, cuja responsabilidade
delegou, nas eleições passadas, aos representantes
do Estado.
O Estado deixa de ser uma instância
burocrática inacessível, empreguista, incompetente
e corrupta, fechada aos reclamos da sociedade e pautada
tão-somente pelo jogo de interesses das elites.
O Mercado deixa de ser um ambiente de permuta de coisas
e pessoas, de transações financeiras e mercantis
apartadas da ética e dos interesses humanos mais
legítimos, traduzidos nos indicadores de Qualidade
de Vida Coletiva e no Índice de Desenvolvimento Humano
da comunidade.
Nesta construção cidadã, como afirma
o Senador Saturnino Braga: "Estado e Sociedade tendem
a se confundir num processo de interligação
crescente. Segundo essa mesma visão, as causações
ou influências recíprocas vão se acentuando
como numa espiral. A democratização se aprofunda
e se torna cada vez mais viável. Os resultados positivos
em termos de redução dos privilégios
e de equalização de oportunidade espraiam-se
pela sociedade, elevam o grau de conscientização
e de politização, alargam as aspirações
e os horizontes e, através da melhoria das condições
materiais e culturais, aumenta a capacidade de participação
popular e ressalta mais a importância dessa participação;
abrem-se novas etapas e o ciclo positivo se amplia em novas
perspectivas de realização democrática.
Por etapas sucessivas, vão desaparecendo algumas
das principais causas de alienação das massas:
a falta de tempo e de dinheiro, as agruras da luta diária
pela sobrevivência; a falta de cultura e o sentimento
de Inferioridade ante as elites; a falta de motivação
pelo sentimento de inocuidade."