OPINIÃO 01 - DAVID
LANDES E O HOMEM DE SILÍCIO
Ruy de A. Mattos
Psicólogo Organizacional e
Consultor de Empresas
As opiniões do historiador
David Landes, expressas nas páginas amarelas da Revista
VEJA da semana de 20/03, refletem os valores de um velho
homem, enrijecido em seu universo mental mercantil que a
tudo e a todos transforma em mercadoria a ser consumida,
comprada, vendida.
Nosso ilustre sociólogo Guerreiro
Ramos deve estar contorcendo-se em seu túmulo ao
perceber o quanto a ética de mercado tem reduzido
o ser humano a mero meio de produção, a recurso
a ser explorado até a exaustão, a objeto de
consumo. Precisamos ter senso crítico para comprender
o discurso de Landes como, tão somente, a expressão
de sua percepção economicista da realidade.
Não é verdade o que ele diz: " empreendimentos
são realizados por pessoas que vivem para trabalhar,
e não por aqueles que trabalham para viver".
Há empreendimentos sendo realizados pelas duas categorias
de homens, as quais ele refere-se. Os empreendimentos que
têm apenas o lucro como meta, são fontes de
injustiça social, de exploração humana
e de destruição da natureza. Não têm
a ética como régua para medir seus resultados.
Quando refere-se à Ásia, que
"vai continuar sendo um dos maiores centros de crescimento
do mundo, pois as bases culturais do crescimento estão
presentes lá", Landes revela sua ignorância
ou perversidade ao considerar crescimento econômico
como o único indicador de desenvolvimento humano.
A própria Ásia continua fazendo seu crescimento
baseado na grande concentração de riqueza
nas mãos de uma elite, deixando para a maior parte
da população, a pobreza. O nosso Brasil é
um exemplo eloquente deste viés economicista, que
transforma os ganhos do PIB numa grotesca realidade de injustiça
social, dor e sofrimento de milhões de brasileiros.
Não precisamos nos transformar em
formigas domesticadas para produzir cada vez mais, criando
excedentes para exportar cada vez mais, para tentar tampar
o buraco de nossa descomunal dívida externa e interna,
criada e mantida por uma sequencia de governantes, ora incompetentes,
ora espertos e corruptos demais. Não queremos crescer
desse jeito como os americanos deslumbrados com a Nova Corrida
do Ouro, estão crescendo: Por só pensarem
em trabalhar, produzir e vender, esqueceram-se de suas vidas
pessoais, como podemos ler na reportagem Bom Emprego, mas
falta Mulher (pág. 74 e 75). Na verdade, o que falta
é dignidade humana, é felicidade, é
tempo livre, é amor, é lazer, é amizade,
é curtir a vida como nós brasileiros sabemos
fazer.
Os coitados dos milhonários
de silício estão apenas "atrás
do dinheiro, do status e da fama. Em compensação,
são obrigados a conviver com a fadiga, o stress e
principalmente, a falta de tempo. Na vida desses empregados
do futuro nada pode ser mais importante que o trabalho."(VEJA)
Será que no fundo há muita diferença
entre nossos carvoeiros (retratos de nosso passado colonial)
e estes homens de silício (arautos do futuro) ? O
senhor Landes precisa fazer um estágio de vida aqui
no Brasil, para aprender que nem só de trabalho vive
o Homem.