OPINIÃO 02 - O LIVRO
VIRTUAL, INTERATIVO E GRATUITO
Ruy de A. Mattos
Psicólogo Organizacional e
Consultor de Empresas
O MP3 está para a música assim como o livro
virtual está para a disseminação de
conhecimentos. Isso mesmo. Precisamos de uma revolução
do campo da editoração. Uma revolução
que produza mudanças significativas na relação
entre o escritor e o leitor, eliminando o longo e dispendioso
calvário que o conhecimento percorre desde que é
criado por seu autor, passando pelo editor, revisor, gráfica,
distribuidor, livreiro e, ufa, até chegar, com um
ano de atraso e um preço escorchante, ao seu destinatário
- o leitor.
É preciso coragem para romper esta
cadeia de intermediários do conhecimento, que se
justificava antes da invenção da internet,
agora não mais. O livro de hoje, um objeto feito
de madeira laminada, é uma extensão dos velhos
papiros, que sucederam a cerâmica da escrita cuneiforme,
que substituiu a pedra. Saimos da era da pedra lascada,
passando pela cerâmica e pela pele de carneiro e estamos
estacionados nas árvores, com medo de deixar o mundo
concreto dos átomos e conquistar o universo dos bits.
Mas, não se iludam. Esta mudança
virá inexoravelmente. Os e-book já estão
começando sua jornada. Eu, como escritor, tendo publicado
vários livros em papel, resolvi que daqui para frente
só o farei via internet, o que você pode conferir
lendo o livro Empresa Rede no site www.emco.com.br . Este
livro, como outros que colocarei à disposição
do leitor, será sempre um conhecimento em construção
interativa. Desse modo, à medida em que receba feedback
e novos enfoques complementares ou contraditórios,
estes serão publicados com a autoria de quem os fez.
Um grande exemplo de que esta é uma tendência
inquestionável nos foi dado pela publicação
virtual da Enciclopédia Britannica.
Não pensem na Amazon.com como exemplo
desta virtualização do conhecimento. Ela é,
ainda, uma empresa anfíbia, cabeça de bits
e corpo de átomos, que disponibiliza, para o mundo,
uma prateleira virtual de livros-objetos, estocados em alguma
editora, distribuidora ou livraria. A indústria da
editoração, com seus processos lentos de construção,
está cada vez mais descompassada em relação
à expectativa de um processo de produção
e consumo de conhecimentos no estilo just-in-time.
O livro virtual cria interatividade, que
substitui a atitude passiva do leitor, acostumado a, no
máximo, rabiscar e marcar o velho livro de papel,
por um comportamento de leitor-parceiro na construção
do conhecimento. Por outro lado, o autor sai do camarim
e assume as luzes do palco, recebendo, de imediato, as reações
de seu público e com isso melhorando seu trabalho.
Isto se aplica principalmente ao livro técnico, mas
também ao conto e a poesia. Uma poesia, num livro
virtual, é um estímulo para que o leitor aprenda
a poetizar, extraindo de si o lirismo inerente ao ser humano.
Se não conseguir, ele leitor-parceiro pode dar o
retorno emocional imediato que o autor tanto precisa, como
o aplauso ou a vaia recebidos por um artista no palco. Outro
grande benefício do livro virtual, como o imagino,
é a gratuidade. Isto mesmo. O leitor não precisa
pagar para ler o livro na internet, do mesmo modo que não
paga para assistir ao telejornal, ao filme ou a novela na
TV. A remuneração do trabalho intelectual
será feita por patrocinadores do conhecimento, sejam
empresas ou pessoas interessadas em associar sua imagem
à construção e à disseminação
da ciência e da literatura.
Vamos juntos, construir esta revolução do
conhecimento, antes que passe o século XXI ?
A reportagem "Atolados em Papel"
da revista VEJA da primeira semana de dezembro, levanta
a ponta do véu que cobre um vício secular,
semelhante ao alcoolismo, tabagismo e outros ismos. É
o biblioismo, mania de consumir papel, ou especificamente,
livros. Um dono de livraria, um dia destes, disse-se que
o livro "serve até para ser lido". Quando
o livro ganha a fama de best-seller, então sem se
fala. A pessoa compra como presente para alguem, sem sequer
abri-lo, pois o que importa é a capa. Quem o recebe
trata-o como presente a ser exposto, fechado, para ficar
mais bonito na mesa ou na estante -"por favor, menino,
não abra este livro, senão vai estragá-lo".
O livro virou objeto de decoração,
comprado pela beleza da capa, pelo nome do autor ou pelo
tamanho da lombada. Você já viu aquelas estantes
que só têm lombadas, ocas por dentro ? Com
Gutenberg saímos, de vez, da civilização
oral e iniciamos a civilização escrita de
modo consistente e popular. Ele fez um senhor "up-grade"
no uso do papel, antes um produto da elite intelectual,
restrito aos escribas de mosteiros e outras instituições
guardiães do conhecimento. Saímos da Era Agrícola,
estamos saindo da Era Industrial, e estamos cada vez mais
entrando na Civilização do Conhecimento, é
verdade. Mas com muito medo de perder o controle da concretude,
isto é, da sensação de que algo para
ser real é preciso ser "coisa", é
necessário tocá-lo, possui-lo, guardá-lo.
Com esta mentalidade ainda presa nas eras extrativista e
agrícola, estamos penando para lidar com este novo
mundo virtual que esta entrando, celeremente, em nossos
escritórios e em nossos lares. A consequencia é
que transformamos o conhecimento em objeto concreto de consumo,
confundindo-o com o meio onde ele é impresso. Por
isso, compramos um pacote de papel chamado de livro ou revista
e o estocamos cuidadosamente em estantes, como tesouros,
semelhante aqueles avarentos que acumulam barras de ouro.
Do mesmo modo que o ouro só gera riqueza
quando sai do banco, o conhecimento só tem sentido
quando sai do livro e passa a fazer parte de nossas conversas,
enriquecendo nossas percepções, nossos sentimentos,
nossos pensamentos, alimentando nossos sonhos. Precisamos
de uma revolução cultural, de uma cruzada
contra a papelocracia e o vício do biblioismo. Os
fabricantes de papel, os editores, os vendedores de livros,
os catadores de papel e as bibliotecas não vão
gostar.
Mas as cidades, as árvores e as novas gerações
agradecerão pela grande economia e pela maior leveza
e limpeza que a vida terá sem tanto papel e lixo
(40% do lixo urbano, segundo a reportagem da VEJA).
Falo com conhecimento de causa, pois já
fui um viciado em livro, daquele tipo que comprava muito
mais do que poderia ler, já fui editor, sou escritor.
Agora estou iniciando uma nova vida, de ex-viciado, e como
tal corro o risco de parecer um arauto dos novos tempos
virtuais, onde o conhecimento fluirá entre as pessoas
com maior agilidade, de modo interativo e a um custo baixíssimo.
Precisamos libertar o conhecimento do papel,
sua prisão desde 1450, quando Gutenberg inventou
a impressão com tipos móveis. Só agora,
com a Internet, conseguimos lidar com o conhecimento em
seu estado natural - a estrutura virtual expressa em bits
e não em átomos de papel, ou de pergaminho
(arabes e judeus), ou de argila (sumérios), ou de
pedra (povos das cavernas e egipcios). O novo meio de produzir,
disseminar e consumir o conhecimento é o WEB-LIVRO.
Nesta nova civilização do conhecimento as
gráficas são substituídas por computadores
pessoais, as editoras são redes de autores, ao invés
de prédios e toda a parafernália burocrática
de seleção, revisão, aprovação,
divulgação e venda.
Ao ler um artigo, um livro na Internet
estamos consumindo o conhecimento em estado puro, fresquinho,
como pão quente, pois acabou de ser produzido pelo
autor para o leitor, sem a cadeia de intermediários
que atrasam o consumo e tornam o produto muito mais caro.
Afinal, o conhecimento, quanto mais é retido, mais
se atrofia, ao contrário da terra, que precisa ser
possuida para tornar-se produtiva.