[OPINIÃO]

1. DAVID LANDES E O HOMEM DE SILÍCIO


2. O LIVRO VIRTUAL, INTERATIVO E GRATUITO


3. CRIAR EMPREGO OU ESTIMULAR EMPREENDIMENTOS


4. EXPORTAR OU MORRER, A SAÍDA PELO PACÍFICO


5. A NOVA REVOLUÇÃO ACREANA


6. PSICOLOGIA E POLÍTICA









 

 

OPINIÃO


OPINIÃO 02 - O LIVRO VIRTUAL, INTERATIVO E GRATUITO

Ruy de A. Mattos
Psicólogo Organizacional e
Consultor de Empresas

O MP3 está para a música assim como o livro virtual está para a disseminação de conhecimentos. Isso mesmo. Precisamos de uma revolução do campo da editoração. Uma revolução que produza mudanças significativas na relação entre o escritor e o leitor, eliminando o longo e dispendioso calvário que o conhecimento percorre desde que é criado por seu autor, passando pelo editor, revisor, gráfica, distribuidor, livreiro e, ufa, até chegar, com um ano de atraso e um preço escorchante, ao seu destinatário - o leitor.

É preciso coragem para romper esta cadeia de intermediários do conhecimento, que se justificava antes da invenção da internet, agora não mais. O livro de hoje, um objeto feito de madeira laminada, é uma extensão dos velhos papiros, que sucederam a cerâmica da escrita cuneiforme, que substituiu a pedra. Saimos da era da pedra lascada, passando pela cerâmica e pela pele de carneiro e estamos estacionados nas árvores, com medo de deixar o mundo concreto dos átomos e conquistar o universo dos bits.

Mas, não se iludam. Esta mudança virá inexoravelmente. Os e-book já estão começando sua jornada. Eu, como escritor, tendo publicado vários livros em papel, resolvi que daqui para frente só o farei via internet, o que você pode conferir lendo o livro Empresa Rede no site www.emco.com.br . Este livro, como outros que colocarei à disposição do leitor, será sempre um conhecimento em construção interativa. Desse modo, à medida em que receba feedback e novos enfoques complementares ou contraditórios, estes serão publicados com a autoria de quem os fez. Um grande exemplo de que esta é uma tendência inquestionável nos foi dado pela publicação virtual da Enciclopédia Britannica.

Não pensem na Amazon.com como exemplo desta virtualização do conhecimento. Ela é, ainda, uma empresa anfíbia, cabeça de bits e corpo de átomos, que disponibiliza, para o mundo, uma prateleira virtual de livros-objetos, estocados em alguma editora, distribuidora ou livraria. A indústria da editoração, com seus processos lentos de construção, está cada vez mais descompassada em relação à expectativa de um processo de produção e consumo de conhecimentos no estilo just-in-time.

O livro virtual cria interatividade, que substitui a atitude passiva do leitor, acostumado a, no máximo, rabiscar e marcar o velho livro de papel, por um comportamento de leitor-parceiro na construção do conhecimento. Por outro lado, o autor sai do camarim e assume as luzes do palco, recebendo, de imediato, as reações de seu público e com isso melhorando seu trabalho. Isto se aplica principalmente ao livro técnico, mas também ao conto e a poesia. Uma poesia, num livro virtual, é um estímulo para que o leitor aprenda a poetizar, extraindo de si o lirismo inerente ao ser humano. Se não conseguir, ele leitor-parceiro pode dar o retorno emocional imediato que o autor tanto precisa, como o aplauso ou a vaia recebidos por um artista no palco. Outro grande benefício do livro virtual, como o imagino, é a gratuidade. Isto mesmo. O leitor não precisa pagar para ler o livro na internet, do mesmo modo que não paga para assistir ao telejornal, ao filme ou a novela na TV. A remuneração do trabalho intelectual será feita por patrocinadores do conhecimento, sejam empresas ou pessoas interessadas em associar sua imagem à construção e à disseminação da ciência e da literatura.
Vamos juntos, construir esta revolução do conhecimento, antes que passe o século XXI ?

A reportagem "Atolados em Papel" da revista VEJA da primeira semana de dezembro, levanta a ponta do véu que cobre um vício secular, semelhante ao alcoolismo, tabagismo e outros ismos. É o biblioismo, mania de consumir papel, ou especificamente, livros. Um dono de livraria, um dia destes, disse-se que o livro "serve até para ser lido". Quando o livro ganha a fama de best-seller, então sem se fala. A pessoa compra como presente para alguem, sem sequer abri-lo, pois o que importa é a capa. Quem o recebe trata-o como presente a ser exposto, fechado, para ficar mais bonito na mesa ou na estante -"por favor, menino, não abra este livro, senão vai estragá-lo".

O livro virou objeto de decoração, comprado pela beleza da capa, pelo nome do autor ou pelo tamanho da lombada. Você já viu aquelas estantes que só têm lombadas, ocas por dentro ? Com Gutenberg saímos, de vez, da civilização oral e iniciamos a civilização escrita de modo consistente e popular. Ele fez um senhor "up-grade" no uso do papel, antes um produto da elite intelectual, restrito aos escribas de mosteiros e outras instituições guardiães do conhecimento. Saímos da Era Agrícola, estamos saindo da Era Industrial, e estamos cada vez mais entrando na Civilização do Conhecimento, é verdade. Mas com muito medo de perder o controle da concretude, isto é, da sensação de que algo para ser real é preciso ser "coisa", é necessário tocá-lo, possui-lo, guardá-lo.
Com esta mentalidade ainda presa nas eras extrativista e agrícola, estamos penando para lidar com este novo mundo virtual que esta entrando, celeremente, em nossos escritórios e em nossos lares. A consequencia é que transformamos o conhecimento em objeto concreto de consumo, confundindo-o com o meio onde ele é impresso. Por isso, compramos um pacote de papel chamado de livro ou revista e o estocamos cuidadosamente em estantes, como tesouros, semelhante aqueles avarentos que acumulam barras de ouro.

Do mesmo modo que o ouro só gera riqueza quando sai do banco, o conhecimento só tem sentido quando sai do livro e passa a fazer parte de nossas conversas, enriquecendo nossas percepções, nossos sentimentos, nossos pensamentos, alimentando nossos sonhos. Precisamos de uma revolução cultural, de uma cruzada contra a papelocracia e o vício do biblioismo. Os fabricantes de papel, os editores, os vendedores de livros, os catadores de papel e as bibliotecas não vão gostar.
Mas as cidades, as árvores e as novas gerações agradecerão pela grande economia e pela maior leveza e limpeza que a vida terá sem tanto papel e lixo (40% do lixo urbano, segundo a reportagem da VEJA).

Falo com conhecimento de causa, pois já fui um viciado em livro, daquele tipo que comprava muito mais do que poderia ler, já fui editor, sou escritor. Agora estou iniciando uma nova vida, de ex-viciado, e como tal corro o risco de parecer um arauto dos novos tempos virtuais, onde o conhecimento fluirá entre as pessoas com maior agilidade, de modo interativo e a um custo baixíssimo.

Precisamos libertar o conhecimento do papel, sua prisão desde 1450, quando Gutenberg inventou a impressão com tipos móveis. Só agora, com a Internet, conseguimos lidar com o conhecimento em seu estado natural - a estrutura virtual expressa em bits e não em átomos de papel, ou de pergaminho (arabes e judeus), ou de argila (sumérios), ou de pedra (povos das cavernas e egipcios). O novo meio de produzir, disseminar e consumir o conhecimento é o WEB-LIVRO. Nesta nova civilização do conhecimento as gráficas são substituídas por computadores pessoais, as editoras são redes de autores, ao invés de prédios e toda a parafernália burocrática de seleção, revisão, aprovação, divulgação e venda.

Ao ler um artigo, um livro na Internet estamos consumindo o conhecimento em estado puro, fresquinho, como pão quente, pois acabou de ser produzido pelo autor para o leitor, sem a cadeia de intermediários que atrasam o consumo e tornam o produto muito mais caro. Afinal, o conhecimento, quanto mais é retido, mais se atrofia, ao contrário da terra, que precisa ser possuida para tornar-se produtiva.




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