[OPINIÃO]

1. DAVID LANDES E O HOMEM DE SILÍCIO


2. O LIVRO VIRTUAL, INTERATIVO E GRATUITO


3. CRIAR EMPREGO OU ESTIMULAR EMPREENDIMENTOS


4. EXPORTAR OU MORRER, A SAÍDA PELO PACÍFICO


5. A NOVA REVOLUÇÃO ACREANA


6. PSICOLOGIA E POLÍTICA









 

 

OPINIÃO


OPINIÃO 03 - CRIAR EMPREGOS OU ESTIMULAR EMPREENDIMENTOS?

Ruy de A. Mattos
Psicólogo Organizacional e
Consultor de Empresas

A primeira reação é "e por quê não ambas as coisas ?" Outra reação usual é: "afinal, emprego e empreendimento não são a mesma coisa ?"

Convido-o a sair desse nível de reação. Vamos mergulhar mais fundo e investigar as raízes desta questão, enquanto política de governo.
Ao enfatizar a geração de empregos, o governo assume uma postura imediatista e potencialmente estatizante e clientelista.

Esta vertente tem caracterizado, de modo marcante, nossos governos, desde o Império, passando pela Velha República, Estado Novo, Governos Militares e persiste até nossos dias. Uma honrosa exceção à regra nos foi dada pelo Governo de Juscelino Kubitschek. Nesta fase, JK, irradiando seu carisma empreendedor, acendeu, em nosso país, uma chama de desenvolvimento acelerado, que ressuscitou o espírito desbravador dos bandeirantes e dos nordestinos do final do século passado. Aqueles empreendedores primitivos adentraram matas, subiram rios e cruzaram montanhas criando novas fronteiras para nosso país. Sem eles o Brasil teria ficado paralisado pela linha burocrática de Tordesilhas, que os portugueses transformaram em tabu, e além da qual não poderíamos ir. Sem aquele espírito empreendedor, talvez tivéssemos hoje um mapa semelhante ao do Chile, um pouco "mais gordo".

Ao estimular e incentivar o surgimento, a manutenção e o crescimento de empreendimentos, o governo assume uma política comprometida com a construção de uma sociedade inovadora e pluralista, viabilizadora do desenvolvimento econômico com maior equidade social.

Foi assim que a Itália resgatou, do atraso, sua região norte, transformando-a numa das regiões mais desenvolvidas da Europa. Isto foi possível devido à política de estímulo à criação de Redes Empreendedoras, que interligavam dezenas, centenas, de pequenas empresas. Como revela a pesquisadora Jessica Lipnack, quando este movimento foi iniciado na região de Emília-Romanha, durante os anos 70, aquela região estava na 18a colocação em termos de renda entre as 21 regiões administrativas da Itália. Uma década depois, impulsionada pelo crescimento explosivo em suas pequenas empresas, esta região tornou-se a segunda mais rica de todo o país. Sua taxa de desemprego caiu de 20% para efetivamente zero ao longo deste mesmo período. Esta mesma política de incentivo à criação de redes empreendedoras, envolvendo pequenos negócios, foi adotada com êxito pela Dinamarca, a partir de 1989, com um programa de $25 milhões de dólares. Em decorrência disso, em 1991, a Dinamarca foi a única nação da Comunidade Econômica Européia que conseguiu obter saldo positivo em sua balança comercial com a Alemanha, tendo tal saldo positivo sido o primeiro na história recente da Dinamarca. Deste modo, este país inicia os anos 90 com o mais elevado saldo comercial per capita do planeta, ultrapassando até mesmo o Japão.

Percebem agora a grande diferença da política de incentivo ao empreendimento para a política de geração de pregos, que tradicionalmente é aplicada em nosso país? Lembram-se das frentes de trabalho que sucedem as secas, as enchentes, as quebras de safras agrícolas ? Lembram-se das medidas imediatistas de criação de empregos nos canteiros de empreiteiras da construção civil, das grandes obras viárias, dos açudes, dos hospitais e escolas que ficaram inacabadas? Todas estas iniciativas paternalistas e clientelistas têm amortecido o espírito empreendedor do brasileiro, viciando-o com as benesses do paizão governo, que, atônito diante de crises repetitivas, abre as portas do cofre, emite moeda além da conta e endivida-se, como um pai irresponsável que dá mesada ao filho já adulto, acomodando-o com o ganho fácil, sem o correspondente trabalho. Há indícios de que o atual governo começa a romper este pacto do empreguismo, apesar do crescente aumento de nossa dívida pública, da lentidão do processo de privatização, da incompreensível falta de iniciativas sistemáticas e corajosas de incentivo ao fortalecimento dos pequenos negócios. A Itália e a Dinamarca nos deram um exemplo que não podemos ignorar: investir na criação de redes de pequenos empreendimentos traz um retorno seguro na geração de postos de trabalho, no aumento da renda, na melhoria das condições de vida, enfim. Portanto, organizar empresas em redes de alianças e parcerias, cria uma sinergia econômica indiscutível. Já é tempo de desburocratizar os procedimentos para a criação de novas empresas, estimulando-as a estruturarem-se em redes!

Já é tempo de reduzir os encargos sociais que sufocam as empresas, liberando recursos para investimentos!

Já é tempo de reduzir os impostos que inviabilizam os pequenos e médios negócios, geradores de 65% dos empregos e de 60% da renda nacional!

Já é tempo de ressuscitar o espírito empreendedor e solidário do brasileiro que, certamente, irá criar um novo surto de desenvolvimento em nosso país!

(Psicólogo Organizacional, Consultor de Governo e de Empresas. Diretor da EMCO - Empresa de Consultoria Organizacional. É autor dos livros Gestão e Democracia na Empresa, Ed. LIVRE, 1991; De Recursos a Seres Humanos, Ed. LIVRE, 1992; Desenvolver-se Suavemente, Ed. LIVRE, 1993;



 

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