OPINIÃO 03 - CRIAR
EMPREGOS OU ESTIMULAR EMPREENDIMENTOS?
Ruy de A. Mattos
Psicólogo Organizacional e
Consultor de Empresas
A primeira reação
é "e por quê não ambas as coisas
?" Outra reação usual é: "afinal,
emprego e empreendimento não são a mesma coisa
?"
Convido-o a sair desse nível de reação.
Vamos mergulhar mais fundo e investigar as raízes
desta questão, enquanto política de governo.
Ao enfatizar a geração de empregos, o governo
assume uma postura imediatista e potencialmente estatizante
e clientelista.
Esta vertente tem caracterizado, de modo
marcante, nossos governos, desde o Império, passando
pela Velha República, Estado Novo, Governos Militares
e persiste até nossos dias. Uma honrosa exceção
à regra nos foi dada pelo Governo de Juscelino Kubitschek.
Nesta fase, JK, irradiando seu carisma empreendedor, acendeu,
em nosso país, uma chama de desenvolvimento acelerado,
que ressuscitou o espírito desbravador dos bandeirantes
e dos nordestinos do final do século passado. Aqueles
empreendedores primitivos adentraram matas, subiram rios
e cruzaram montanhas criando novas fronteiras para nosso
país. Sem eles o Brasil teria ficado paralisado pela
linha burocrática de Tordesilhas, que os portugueses
transformaram em tabu, e além da qual não
poderíamos ir. Sem aquele espírito empreendedor,
talvez tivéssemos hoje um mapa semelhante ao do Chile,
um pouco "mais gordo".
Ao estimular e incentivar o surgimento, a
manutenção e o crescimento de empreendimentos,
o governo assume uma política comprometida com a
construção de uma sociedade inovadora e pluralista,
viabilizadora do desenvolvimento econômico com maior
equidade social.
Foi assim que a Itália resgatou, do
atraso, sua região norte, transformando-a numa das
regiões mais desenvolvidas da Europa. Isto foi possível
devido à política de estímulo à
criação de Redes Empreendedoras, que interligavam
dezenas, centenas, de pequenas empresas. Como revela a pesquisadora
Jessica Lipnack, quando este movimento foi iniciado na região
de Emília-Romanha, durante os anos 70, aquela região
estava na 18a colocação em termos de renda
entre as 21 regiões administrativas da Itália.
Uma década depois, impulsionada pelo crescimento
explosivo em suas pequenas empresas, esta região
tornou-se a segunda mais rica de todo o país. Sua
taxa de desemprego caiu de 20% para efetivamente zero ao
longo deste mesmo período. Esta mesma política
de incentivo à criação de redes empreendedoras,
envolvendo pequenos negócios, foi adotada com êxito
pela Dinamarca, a partir de 1989, com um programa de $25
milhões de dólares. Em decorrência disso,
em 1991, a Dinamarca foi a única nação
da Comunidade Econômica Européia que conseguiu
obter saldo positivo em sua balança comercial com
a Alemanha, tendo tal saldo positivo sido o primeiro na
história recente da Dinamarca. Deste modo, este país
inicia os anos 90 com o mais elevado saldo comercial per
capita do planeta, ultrapassando até mesmo o Japão.
Percebem agora a grande diferença
da política de incentivo ao empreendimento para a
política de geração de pregos, que
tradicionalmente é aplicada em nosso país?
Lembram-se das frentes de trabalho que sucedem as secas,
as enchentes, as quebras de safras agrícolas ? Lembram-se
das medidas imediatistas de criação de empregos
nos canteiros de empreiteiras da construção
civil, das grandes obras viárias, dos açudes,
dos hospitais e escolas que ficaram inacabadas? Todas estas
iniciativas paternalistas e clientelistas têm amortecido
o espírito empreendedor do brasileiro, viciando-o
com as benesses do paizão governo, que, atônito
diante de crises repetitivas, abre as portas do cofre, emite
moeda além da conta e endivida-se, como um pai irresponsável
que dá mesada ao filho já adulto, acomodando-o
com o ganho fácil, sem o correspondente trabalho.
Há indícios de que o atual governo começa
a romper este pacto do empreguismo, apesar do crescente
aumento de nossa dívida pública, da lentidão
do processo de privatização, da incompreensível
falta de iniciativas sistemáticas e corajosas de
incentivo ao fortalecimento dos pequenos negócios.
A Itália e a Dinamarca nos deram um exemplo que não
podemos ignorar: investir na criação de redes
de pequenos empreendimentos traz um retorno seguro na geração
de postos de trabalho, no aumento da renda, na melhoria
das condições de vida, enfim. Portanto, organizar
empresas em redes de alianças e parcerias, cria uma
sinergia econômica indiscutível. Já
é tempo de desburocratizar os procedimentos para
a criação de novas empresas, estimulando-as
a estruturarem-se em redes!
Já é tempo de reduzir os encargos
sociais que sufocam as empresas, liberando recursos para
investimentos!
Já é tempo de reduzir os impostos
que inviabilizam os pequenos e médios negócios,
geradores de 65% dos empregos e de 60% da renda nacional!
Já é tempo de ressuscitar o
espírito empreendedor e solidário do brasileiro
que, certamente, irá criar um novo surto de desenvolvimento
em nosso país!
(Psicólogo Organizacional, Consultor
de Governo e de Empresas. Diretor da EMCO - Empresa de Consultoria
Organizacional. É autor dos livros Gestão
e Democracia na Empresa, Ed. LIVRE, 1991; De Recursos a
Seres Humanos, Ed. LIVRE, 1992; Desenvolver-se Suavemente,
Ed. LIVRE, 1993;