OPINIÃO 04 - EXPORTAR
OU MORRER, A SAÍDA PELO PACÍFICO
Ruy de A. Mattos
Psicólogo Organizacional e
Consultor de Empresas
Quando FHC lançou
seu brado "exportar ou morrer" lembrou-me a figura
imponente de Dom Pedro I, dando seu grito de guerra "independência
ou morte!". Veio à mente também o grande
Tiradentes ao declarar "liberdade ainda que tardia!".
Mas, a decepção veio logo a seguir, quando
a versão tucana diplomaticamente morna substituiu
aquele lema pela tímida declaração
"exportar para viver". Que falta de senso heróico
deste governo!
Um país não é feito só de decisões
econômicas e racionais, mas de imagens simbólicas
que falam ao inconsciente coletivo do povo e deixam marcas
em sua cultura nacional. O político não pode
negar-se ao seu papel dramático, de fazer o senso
comum mirar-se numa visão de futuro marcante, energizadora
do presente. Do contrário, só repetiremos,
burocraticamente, o passado.
Eu fico com o lema "exportar ou morrer!". E percebo
que nosso presidente, em seu íntimo, teria querido
dizer em alto e bom som "exportar ou moratória".
Infelizmente foi o que nossa vizinha Argentina acabou de
fazer com seu cavalar pacote econômico de 2 de novembro,
dia dos mortos, ainda que veladamente, ao dar um calote
de 95 bilhões de dólares em sua dívida
de 132 bilhões de dólares, com sua anunciada
"reestruturação consensual".
É claro que nossa economia é bem maior e nosso
parque industrial bem mais moderno que o da Argentina. Mas
nossa dívida também é muito maior e
os juros escorchantes que somos obrigados a pagar anualmente
não nos deixam em situação tão
confortável como gostaríamos, pois temos o
compromisso assumido de rolar 30 bilhões de dólares
de nossa enorme dívida, anualmente.
Diante deste cenário preocupante só
temos três saídas: não pagar, cortar
despesas ou aumentar nossa receita em dólares. A
primeira alternativa não é coisa de gente
séria e responsável, apesar de não
termos sido tão responsáveis ao contrairmos
nossa dívida externa, ao longo dos últimos
governos; a segunda medida tem se mostrado sempre muito
tímida em nossa história recente, salvo o
alento da lei de responsabilidade fiscal, recém promulgada;
resta-nos a última saída, literalmente a saída
para o exterior, de nossos produtos e serviços.
Contra esta decisão temos nossa falta de tradição
exportadora, resultante, de um lado, de nosso grande mercado
interno e, de outro, de nossa escassa experiência
e agressividade na contenda do comércio internacional.
Enquanto conseguimos exportar apenas o equivalente a 11%
de nosso PIB, o México exporta 31%, o Chile 32% e
a Coréia do Sul exportam o equivalente a 44% de seu
PIB nacional.
Temos que romper muitas barreiras, além
das tributárias e burocráticas. Precisamos
romper as restrições culturais, para conseguirmos
exportar significativamente mais, saindo desta timidez que
nos tem caracterizado ao longo de décadas, como bem
o demonstra pesquisa da Organização Mundial
do Comércio que, ao comparar a evolução
nos últimos 20 anos (1980 a 2000) de nossas exportações
com a de outros países, revela nossa sofrível
posição de lanterninha: enquanto crescemos
apenas 2,7 vezes neste período, o Chile e os EUA
mais do que triplicaram (3,6 vezes), a Malásia cresceu
7 vezes e meia, o México 9 vezes e a Coréia
do Sul decuplicou suas exportações, passando
de 17 para 173 bilhões de dólares. Nós
crescemos nosso valor de exportação de 20
para 55 bilhões de dólares, destas duas décadas.
Temos que quebrar paradigmas antigos que
vêm nos mantendo presos a um passado colonial e ao
saudosismo de nossos laços atlânticos, que
nos ligam à Europa, à África e à
costa leste das Américas Central e do Norte.
Precisamos conquistar o Oceano Pacífico e, por meio
dele, bilhões de asiáticos, potenciais consumidores
de nossos produtos, além de toda a costa oeste das
Américas. A porta desta saída pacífica
já está entreaberta, em parceria com nosso
vizinho Peru e passa pelo corredor acreano. Espera-se para
agosto de 2002, finalmente, o asfaltamento da Rodovia do
Pacífico, a BR 317.
Já é tempo de deixarmos de negar o óbvio
que representa a riqueza da Costa Oeste para nossa economia.
Na ausência de uma vontade política mais decisiva
por parte do governo federal, a iniciativa privada de brasileiros
empreendedores do Mato Grosso, de Rondônia, do Acre
e do Amazonas abriu e dinamizou o corredor de exportação
combinando rodovia com hidrovia até chegar ao porto
de Manaus, para daí ganhar o mundo. O resultado foi
a redução significativa do frete e o barateamento
dos produtos exportados, comparando-se com as habituais
e viciadas saídas via Paraná, Espírito
Santo, Rio e São Paulo.
Precisamos de Estadistas (assim, com E maiúsculo)
que tenham coragem de quebrar o Paradigma do Atlântico
e, dando meia-volta em seus campos de visão, repitam
o que fizeram nossos paulistas bandeirantes, que desobedientes
à coroa portuguesa rasgaram o Tratado de Tordesilhas
e penetraram fundo em nossas matas e sertões. Em
busca de riquezas, construíram o Brasil do Oeste,
nos legando este imenso território, do qual tanto
nos orgulhamos.
Carecemos de Estadistas que tenham a energia dos nordestinos
que, em meados do século XIX, abandonaram o sertão
e o litoral, aventurando-se pelos rios da Amazônia,
entrando fundo em espaços desconhecidos pelo homem
branco. Ao explorar o ouro-verde da borracha criaram riquezas
e civilizações. Desafiando o "Bolivian
Sindicate", formado por investidores ingleses, conquistaram
as terras que deram origem ao nosso estado do Acre.
E é por meio do estado do Acre que será conquistada
mais uma fronteira: a da exportação pelo Pacífico.
É preciso que os políticos
dominantes do quadrilátero Brasília-Minas-São
Paulo-Rio, de onde emanam as diretrizes do desenvolvimento
brasileiro, ampliem suas visões estratégicas,
incluindo toda esta pujante fronteira produtiva do Centro-Oeste
e do Noroeste de nosso país. Neste novo cenário
econômico internacional que emerge da crise recessiva
mundial, temos que ter a coragem de bradar a plenos pulmões:
EXPORTAR OU MORRER!" É neste contexto que o
Acre, sim, este ainda tão esquecido estado brasileiro,
irá desempenhar o papel proeminente de Portal das
Exportações Brasileiras, via Oceano Pacífico.