OPINIÃO 05 - A NOVA
REVOLUÇÃO ACREANA
Ruy de A. Mattos
Psicólogo Organizacional e
Consultor de Empresas
O Acre nasceu sob a
égide da coragem e do espírito aventureiro
de nossos antepassados.
Em meados do século XIX, os nordestinos, contrariando
o senso habitual que lhes indicava o rumo do sul, tomaram
a direção do oeste, desbravando as florestas
amazônicas. Após penetrarem nas chamadas "tierras
no descubiertas" que os bolivianos entregaram ao domínio
do capital internacional do Bolivian Sindicate, os acreanos
fincaram pé, mesmo contra a falta de vontade do governo
brasileiro de assumir aquele território virgem.
Associando a sagacidade e a energia do gaúcho Plácido
de Castro com a grande coragem e determinação
dos nordestinos, conquistamos e criamos o Acre, único
estado que se tornou brasileiro por vontade própria.
Interpretando a epopéia acreana sob
a ótica da moderna teoria empresarial, podemos dizer
que a criação do Acre é um caso típico
de espírito empreendedor coletivo. Superando as dificuldades
da época, os perigos da região desconhecida,
a escassez de recursos e a falta de vontade política,
aqueles empreendedores abriram novos espaços de trabalho
e geraram novas oportunidades de riqueza para o país.
Onde está este espírito empreendedor acreano?
Nossos empresários contemporâneos
acomodaram-se sob as asas benfazejas do governo, ou estão
a esperar, em berço esplêndido, por melhores
condições para investir em novas frentes de
trabalho, em novas tecnologias, em novos produtos?
Até quando esta atitude passiva ou reativa que nos
tem transformado em pedintes do governo federal inibirá
nosso espírito empreendedor?
Até quando o conforto da segurança dos empregos
públicos nos deixará acomodados e medrosos
diante dos desafios que o futuro nos apresenta?
Estamos no limiar de uma grande mudança na história
do Acre, com a abertura da rodovia do pacífico. Com
ela poderemos contribuir, de modo marcante, na cruzada brasileira
de exportação. O enorme potencial econômico
que a saída pelo Pacífico representa para
o Brasil ainda não tem sido bem dimensionado, nem
tampouco percebido com clareza.
Saberemos lidar com os ciúmes que
esta nova abertura dos portos produzirá em nossos
irmãos do sudeste? Não vamos continuar nos
iludindo. Os constantes atrasos na construção
da BR 317 e a desatenção para com a BR 364
têm refletido, ao longo do tempo, a falta de prioridade
de nossos governantes e políticos do sudeste, para
com os destinos desta nossa região noroeste. Refletem,
também um viés estratégico equivocado
que fez do Atlântico a única fronteira para
nossas exportações. Quanta ignorância
deixar de lado bilhões de asiáticos, toda
a costa oeste das Américas, Austrália, Oceania
relegados ao segundo plano no jogo do comércio internacional!
Quanta miopia em não ver a posição
estratégica do Acre neste novo cenário internacional!
Basta olhar para o mapa da América do Sul para ver
que nosso Acre é um estado incrustado na região
do pacífico. Nos separa daquele oceano apenas algumas
centenas de quilômetros, enquanto precisamos percorrer
o triplo desta distância para chegar aos portos do
sudeste.
Em definitivo, o Acre é o portal natural para a exportação
de nossos produtos para os países banhados pelo Oceano
Pacífico. Utilizar esta via de escoamento representará
uma redução significativa no valor do frete
de nossas mercadorias, um fator cada vez mais significativo
na definição de seu preço final. Outro
ganho muito importante é o encurtamento das viagens
marítimas, pois se evita o longo percurso que representa
sair de Paranaguá ou de Santos, subir o Atlântico
para cruzar o Canal do Panamá ou rodear a África
para chegar à Ásia.
Nossos empresários e políticos
precisarão exercitar o pensamento estratégico
e construir alianças e parcerias que viabilizem novos
negócios nos diversos campos criados pela estrada
do Pacífico. Um celeiro de oportunidades avizinha-se
do Acre: novos negócios na área de transportes,
de combustíveis, de mecânica pesada, de alimentos,
sem falar no efeito alavancador que uma estrada internacional
como esta trará a todos os setores industriais, comerciais
e de serviços de nosso estado.
Já é tempo de limpar o limo de nossas engrenagens
produtivas, acomodadas no extrativismo naturalista de nossa
floresta e na exploração predatória
da pecuária bovina, ocupações de baixa
produtividade e tíbios resultados econômicos.
Precisamos nos organizar para uma nova revolução
acreana! Uma revolução cultural, que mude
a mentalidade empresarial de nossa gente.
Não nos esqueçamos da triste lição
que aprendemos com os britânicos que, associados aos
malásios e outros países, tiraram de nossas
mãos a riqueza produzida pela seringueira, abalando
seriamente nossa economia durante todo este século
passado. Mas, não adianta chorar sobre o látex
derramado!
Vamos mirar os novos horizontes que
se delineiam e buscar, em nosso íntimo, o vigor empreendedor
de nossos antepassados para construir um novo Acre.
Vamos criar novos empreendimentos na esteira da internacionalização,
tomando-lhes as rédeas, antes que fiquemos reféns
de interesses de empresários de outras regiões
ou de outros países.