OPINIÃO 06 - PSICOLOGIA
E POLÍTICA
Ruy de A. Mattos
Psicólogo Organizacional e
Consultor de Empresas
Na missão de
contribuir para desenvolvimento do ser humano, a Psicologia
vem ampliando seu espaço de manobra saindo do consultório
para entrar na família, na escola, na empresa, nas
prisões e nas ruas. Substituindo o cacoete (ou modelo)
médico, caracterizado pela atitude de espera, o Psicólogo
vai ao encontro do cliente e de sua situação-problema,
perdendo, pouco a pouco, o medo de enfrentar o desafio da
vida em sociedade, com seus dilemas e paradoxos. Vai saindo
timidamente, inseguro, deixando o silêncio morno e
escuro de sua "caverna", ainda sem saber ao certo
como lidar com o desconforto e a turbulência do dia-a-dia
onde vivem as pessoas.
Este é um desafio novo: fazer ciência
e profissão enquanto se vive, se sente, se sofre
e se goza cada momento da realidade com suas contradições
e surpresas, desmitificando-se os princípios do controle
de variáveis, da objetividade do cientista neutro
e da onisciência do clínico.
Nessa nova fase, o psicólogo entra
nas organizações sociais, onde as pessoas
trabalham, estudam, divertem-se, na maior parte de suas
vidas. Especificamente, nas empresas e repartições
públicas, macro-instrumentos da realização
do homem pelo trabalho, começamos a desvendar alguns
mistérios, a quebrar alguns tabus e a compreender
certos mitos que ocultavam a origem de diversos problemas
que continuam a levar o indivíduo aos falsos gurus,
às drogas tranqüilizantes ou excitantes, às
psicoterapias readaptadoras, entre outros meios que encontra
para fugir de situações desconfortáveis
e ameaçadoras.
Entre os tabus organizacionais ressalta-se
o poder, fenômeno ainda superficialmente abordado
pelas teorias administrativas e evitado pela Psicologia.
Há quem o considere, tão somente, a manifestação
de mentes doentes tentando, por meio da dominação
dos outros, superar complexos de inferioridade e traumas
da infância vivida sob o jugo da tirania paterna,
e pronto, está resolvida a questão. Muito
simples, não? E irresponsável também,
pois, com essa explicação simplista mantém-se
oculto um dos fatores responsáveis pela desmotivação,
apatia, enfim, atrofia das potencialidades humanas no ambiente
de trabalho.
Ao não compreender como se estruturam,
mantêm e se ampliam as inumeráveis redes de
poder nas quais encontra-se amarrado, o indivíduo
transforma-se em mero instrumento de trabalho, joguete de
interesse dos superiores que, obviamente, manipulando com
destreza as regras do jogo de poder, mantêm e fortalecem
cada vez mais a dominação sobre os subalternos.
A pessoa, ao alienar o seu poder, entregando-o nas mãos
de outrem, transforma-se em ferramenta, numa espécie
de autômato a cumprir seu ritual diário de
assinar o ponto e fazer de conta que está realizando
algo relevante em troca do parco salário. Estarei
sendo muito severo? Estarei caricaturando demasiadamente
a situação do trabalhador, do funcionário
público? Se você se der ao trabalho de conviver
de perto com a situação ou se refletir sobre
sua própria condição (se for funcionário)
verá que a realidade é bem esta mesmo.
Há muitos fatores que vêm contribuindo
para a manutenção das condições
desumanas de trabalho caracterizadas pelas relações
de dominação (autoritária ou paternalista).
Além do longo período de autoritarismo que
vivemos naqueles vinte anos da ditadura militar e da insegurança
resultante do restrito mercado de trabalho, destaco aqui
um fator de ordem psicológica que, por assentar-se
numa justificativa ideológica, tem passado despercebido
para a maioria das pessoas. Refiro-me à distorção
da percepção e da concepção
sobre o comportamento humano e, especificamente, sobre o
fenômeno do poder. Tal distorção ocorre,
por exemplo, quando diante de uma relação
de poder, centra-se o enfoque sobre um dos participantes
da relação, buscando nele as causas dos problemas
e transformando o outro membro da relação
em mera vítima e seu comportamento em efeito da ação
do primeiro. Ao fazer isso se distorce o fenômeno
observado, ora em benefício do dominado, ora em proveito
do dominador, dependendo da posição ideológica
do observador. Em qualquer um dos casos deixa-se de reconhecer
o comportamento humano como fenômeno relacional, principalmente
quando numa situação de poder. Ao invés
disso, tenta-se transformar algo dinâmico e biunívoco
em estático e unívoco. Desse modo fica fácil,
porém, inútil, explicar o fenômeno do
poder corno resultante da personalidade autoritária,
paternalista ou democrática de alguém ou como
manifestação do caráter anárquico,
contestador ou subserviente de outro alguém, isto
é, como atributos inerentes ao indivíduo,
inalteráveis como a cor de seus olhos, seu sexo (hoje
nem tanto imutável), a cor de sua pele, etc.
Esta distorção percepto-conceptual
constitui a maior dificuldade para a compreensão
e a mudança das relações de poder extremamente
assimétricas tais como o autoritarismo e o paternalismo
(as duas faces da mesma moeda), tão encontradas nas
organizações sociais.
Em nossa história, desde os idos das
Capitanias Hereditárias, passando pelo Reinado, Velha
República, Estado Novo, até o momento atual,
em que voltamos a participar da construção
de nossa convivência social e política, o autoritarismo
e o paternalismo têm andado de mãos dadas (salvo
alguns períodos democráticos), mantidos ora
pela subserviência ora por levantes e pequenas revoltas
emocionais religiosas.
O nosso longo processo de alienação
política, sem dúvida, tem marcado o comportamento
organizacional, reproduzindo, principalmente nas estruturas
burocráticas, até com maior intensidade, a
tirania, o favorecimento, o nepotismo, o culto à
lealdade e à submissão em detrimento da competência
para solucionar os graves problemas econômicos e sociais
que se multiplicam a cada ano em diversas regiões
do país.
Será que os administradores da Nova
República terão interesse de reverter esse
processo autoritário, de fato? Ou a chamada "remoções
do entulho autoritário" ficará limitado
à retórica, ou aos decretos, às leis,
sem transformar-se em novas atitudes e comportamentos, respaldadas
por crenças e valores realmente democráticos?
A nova Constituição será um livro de
bordo a ser seguido, de fato, ou ficará, como grande
parte de nosso repertório jurídico, simples
referencial de consulta acadêmica? Para surpresa de
seus funcionários, os novos administradores têm
se apresentado com "roupa nova" e cabeça
velha, aproveitando-se maquiavelicamente, das expectativas
democrátivas, para ludibriar e manipular, com seus
discursos, os esperançosos servidores públicos.
Na hora da prática, o lobo autoritário despe-se
da pele de cordeiro e revela-se, às vezes, mais voraz
de poder do que os da Velha República.
Agora, mais do que nunca, é necessário
que a Psicologia, aliada à Pedagogia, Administração,
Economia e Ciência Política, dê sua contribuição
à compreensão do fenômeno do poder,
desmitificando-o e criando meios à tão desejada
democratização, das organizações
sociais. Só assim poderemos combater a tendência
das instituições públicas de permanecerem
tais como ilhas de autoritarismo numa sociedade democrática.
O primeiro passo para a democratização
do ambiente de trabalho é o reconhecimento, pelos
participantes da relação de poder, de que
são co-responsáveis pela construção
e manutenção dessa relação.
Assim, a dominação (autoritária ou
paternalista), precisa, para persistir, da conivência
do dominador e do dominado, recaindo em ambos a responsabilidade
também pela sua redução ou eliminação.
Administrar a qualidade das relações
de poder é uma nova aprendizagem que precisa ser
feita por todos os trabalhadores e funcionários,
independentes de seu nível e de suas atribuições.
Nesse sentido é necessário que exercitem o
diálogo, a negociação e a confrontação
ao lado da disciplina, do consentimento e da cooperação,
habilidades indispensáveis à construção
de uma organização social democrática.
É preciso, portanto, um processo
ativo e compartilhado de construção e desenvolvimento
de relações que representem meios dignos e
eficazes à realização e ao bem-estar
do ser humano. E a Psicologia Organizacional tem muito a
contribuir no sentido de tornar as organizações
sociais ambientes e instrumentos compatíveis com
a meta última de toda ciência e profissão
que é a felicidade humana.