[OPINIÃO]

1. DAVID LANDES E O HOMEM DE SILÍCIO


2. O LIVRO VIRTUAL, INTERATIVO E GRATUITO


3. CRIAR EMPREGO OU ESTIMULAR EMPREENDIMENTOS


4. EXPORTAR OU MORRER, A SAÍDA PELO PACÍFICO


5. A NOVA REVOLUÇÃO ACREANA


6. PSICOLOGIA E POLÍTICA









 

 

OPINIÃO


OPINIÃO 06 - PSICOLOGIA E POLÍTICA

Ruy de A. Mattos
Psicólogo Organizacional e
Consultor de Empresas

Na missão de contribuir para desenvolvimento do ser humano, a Psicologia vem ampliando seu espaço de manobra saindo do consultório para entrar na família, na escola, na empresa, nas prisões e nas ruas. Substituindo o cacoete (ou modelo) médico, caracterizado pela atitude de espera, o Psicólogo vai ao encontro do cliente e de sua situação-problema, perdendo, pouco a pouco, o medo de enfrentar o desafio da vida em sociedade, com seus dilemas e paradoxos. Vai saindo timidamente, inseguro, deixando o silêncio morno e escuro de sua "caverna", ainda sem saber ao certo como lidar com o desconforto e a turbulência do dia-a-dia onde vivem as pessoas.

Este é um desafio novo: fazer ciência e profissão enquanto se vive, se sente, se sofre e se goza cada momento da realidade com suas contradições e surpresas, desmitificando-se os princípios do controle de variáveis, da objetividade do cientista neutro e da onisciência do clínico.

Nessa nova fase, o psicólogo entra nas organizações sociais, onde as pessoas trabalham, estudam, divertem-se, na maior parte de suas vidas. Especificamente, nas empresas e repartições públicas, macro-instrumentos da realização do homem pelo trabalho, começamos a desvendar alguns mistérios, a quebrar alguns tabus e a compreender certos mitos que ocultavam a origem de diversos problemas que continuam a levar o indivíduo aos falsos gurus, às drogas tranqüilizantes ou excitantes, às psicoterapias readaptadoras, entre outros meios que encontra para fugir de situações desconfortáveis e ameaçadoras.

Entre os tabus organizacionais ressalta-se o poder, fenômeno ainda superficialmente abordado pelas teorias administrativas e evitado pela Psicologia. Há quem o considere, tão somente, a manifestação de mentes doentes tentando, por meio da dominação dos outros, superar complexos de inferioridade e traumas da infância vivida sob o jugo da tirania paterna, e pronto, está resolvida a questão. Muito simples, não? E irresponsável também, pois, com essa explicação simplista mantém-se oculto um dos fatores responsáveis pela desmotivação, apatia, enfim, atrofia das potencialidades humanas no ambiente de trabalho.

Ao não compreender como se estruturam, mantêm e se ampliam as inumeráveis redes de poder nas quais encontra-se amarrado, o indivíduo transforma-se em mero instrumento de trabalho, joguete de interesse dos superiores que, obviamente, manipulando com destreza as regras do jogo de poder, mantêm e fortalecem cada vez mais a dominação sobre os subalternos. A pessoa, ao alienar o seu poder, entregando-o nas mãos de outrem, transforma-se em ferramenta, numa espécie de autômato a cumprir seu ritual diário de assinar o ponto e fazer de conta que está realizando algo relevante em troca do parco salário. Estarei sendo muito severo? Estarei caricaturando demasiadamente a situação do trabalhador, do funcionário público? Se você se der ao trabalho de conviver de perto com a situação ou se refletir sobre sua própria condição (se for funcionário) verá que a realidade é bem esta mesmo.

Há muitos fatores que vêm contribuindo para a manutenção das condições desumanas de trabalho caracterizadas pelas relações de dominação (autoritária ou paternalista). Além do longo período de autoritarismo que vivemos naqueles vinte anos da ditadura militar e da insegurança resultante do restrito mercado de trabalho, destaco aqui um fator de ordem psicológica que, por assentar-se numa justificativa ideológica, tem passado despercebido para a maioria das pessoas. Refiro-me à distorção da percepção e da concepção sobre o comportamento humano e, especificamente, sobre o fenômeno do poder. Tal distorção ocorre, por exemplo, quando diante de uma relação de poder, centra-se o enfoque sobre um dos participantes da relação, buscando nele as causas dos problemas e transformando o outro membro da relação em mera vítima e seu comportamento em efeito da ação do primeiro. Ao fazer isso se distorce o fenômeno observado, ora em benefício do dominado, ora em proveito do dominador, dependendo da posição ideológica do observador. Em qualquer um dos casos deixa-se de reconhecer o comportamento humano como fenômeno relacional, principalmente quando numa situação de poder. Ao invés disso, tenta-se transformar algo dinâmico e biunívoco em estático e unívoco. Desse modo fica fácil, porém, inútil, explicar o fenômeno do poder corno resultante da personalidade autoritária, paternalista ou democrática de alguém ou como manifestação do caráter anárquico, contestador ou subserviente de outro alguém, isto é, como atributos inerentes ao indivíduo, inalteráveis como a cor de seus olhos, seu sexo (hoje nem tanto imutável), a cor de sua pele, etc.

Esta distorção percepto-conceptual constitui a maior dificuldade para a compreensão e a mudança das relações de poder extremamente assimétricas tais como o autoritarismo e o paternalismo (as duas faces da mesma moeda), tão encontradas nas organizações sociais.

Em nossa história, desde os idos das Capitanias Hereditárias, passando pelo Reinado, Velha República, Estado Novo, até o momento atual, em que voltamos a participar da construção de nossa convivência social e política, o autoritarismo e o paternalismo têm andado de mãos dadas (salvo alguns períodos democráticos), mantidos ora pela subserviência ora por levantes e pequenas revoltas emocionais religiosas.

O nosso longo processo de alienação política, sem dúvida, tem marcado o comportamento organizacional, reproduzindo, principalmente nas estruturas burocráticas, até com maior intensidade, a tirania, o favorecimento, o nepotismo, o culto à lealdade e à submissão em detrimento da competência para solucionar os graves problemas econômicos e sociais que se multiplicam a cada ano em diversas regiões do país.

Será que os administradores da Nova República terão interesse de reverter esse processo autoritário, de fato? Ou a chamada "remoções do entulho autoritário" ficará limitado à retórica, ou aos decretos, às leis, sem transformar-se em novas atitudes e comportamentos, respaldadas por crenças e valores realmente democráticos? A nova Constituição será um livro de bordo a ser seguido, de fato, ou ficará, como grande parte de nosso repertório jurídico, simples referencial de consulta acadêmica? Para surpresa de seus funcionários, os novos administradores têm se apresentado com "roupa nova" e cabeça velha, aproveitando-se maquiavelicamente, das expectativas democrátivas, para ludibriar e manipular, com seus discursos, os esperançosos servidores públicos. Na hora da prática, o lobo autoritário despe-se da pele de cordeiro e revela-se, às vezes, mais voraz de poder do que os da Velha República.

Agora, mais do que nunca, é necessário que a Psicologia, aliada à Pedagogia, Administração, Economia e Ciência Política, dê sua contribuição à compreensão do fenômeno do poder, desmitificando-o e criando meios à tão desejada democratização, das organizações sociais. Só assim poderemos combater a tendência das instituições públicas de permanecerem tais como ilhas de autoritarismo numa sociedade democrática.

O primeiro passo para a democratização do ambiente de trabalho é o reconhecimento, pelos participantes da relação de poder, de que são co-responsáveis pela construção e manutenção dessa relação. Assim, a dominação (autoritária ou paternalista), precisa, para persistir, da conivência do dominador e do dominado, recaindo em ambos a responsabilidade também pela sua redução ou eliminação.

Administrar a qualidade das relações de poder é uma nova aprendizagem que precisa ser feita por todos os trabalhadores e funcionários, independentes de seu nível e de suas atribuições. Nesse sentido é necessário que exercitem o diálogo, a negociação e a confrontação ao lado da disciplina, do consentimento e da cooperação, habilidades indispensáveis à construção de uma organização social democrática.

É preciso, portanto, um processo ativo e compartilhado de construção e desenvolvimento de relações que representem meios dignos e eficazes à realização e ao bem-estar do ser humano. E a Psicologia Organizacional tem muito a contribuir no sentido de tornar as organizações sociais ambientes e instrumentos compatíveis com a meta última de toda ciência e profissão que é a felicidade humana.

 



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